Direito à pergunta

(Por Rubem Penz)

Eu queria saber uma coisa:

“Por que só dão conselhos às mulheres bonitas?”

Eu queria saber uma coisa: por que as mulheres perguntam para seus homens se está bom o vestido que elas escolheram entre os dezessete experimentados e, logo depois de escutar que sim, agradecem com um sorriso, um beijo e, às vezes, até com um “você é um amor”, tudo para, logo a seguir, voltar ao quarto e trocar mais uma vez, talvez até para o primeiro? (Se é para desprezar o veredito, qual a razão da consulta?)

Eu queria saber uma coisa: por que uma criança pequena, daquelas que ainda usa fraldas exatamente por não dominar seus esfíncteres – ou mesmo ter uma noção mais exata do que significa evacuação –, espera pacienciosamente que o papai ou a mamãe troque as fraldas para fazer um grande, poderoso e indefectível cocô? (Tal atitude faz a fralda descartável ser uma embalagem caríssima, agregando valor ao “presentinho” do nenê para além do eufemismo.)

Eu queria saber uma coisa: por que as sogras passam a vida inteira reclamando que as noras não cuidam de seus filhos como deveriam, ou os sogros passam a vida inteira vigilantes para que os genros cuidem de suas filhas com o mesmo zelo que outrora tiveram, quando eles mesmos passaram a juventude dos filhos inteira doutrinando-os para que fossem absolutamente independentes? (Como é difícil agradar as novas famílias…)

Eu queria saber uma coisa: por que 50% é um índice absolutamente inconfiável para se correr riscos, pois é quase certo que algo dará errado (por exemplo, quem adotaria um anticoncepcional com esta percentagem de sucesso?), enquanto a mesmíssima metade das chances, na hora de dar certo, se torna quase impossível? (Ok, confesso que esta angústia é muito particular minha: perco qualquer sorteio – de loteria a par-ou-ímpar.)

Eu queria saber uma coisa: por que apenas quem está ao lado do tabuleiro, logo, fora do jogo, sabe exatamente o que precisa ser feito para dar um xeque-mate? Também a razão de ele apertar os lábios e soltar um gemido surdo assim que botamos a mão em uma das peças, alertando o adversário de que podemos estar fazendo uma besteira? (A maldade dos homens realmente não tem limites.)

Agora, a razão de todos desejarem dar conselhos às mulheres bonitas, ah, essa resposta eu tenho. Além de muito simples, ela pode estar cifrada em cada uma das inquietações acima, bastando uma análise atenta. Cheguei a pensar em revelá-la antes do fim da crônica, mas pareceu que estaria subestimando o leitor. Ainda mais se for uma leitora. E, além de tudo, bonita como você. (Soaria como um irritante conselho.)

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