Exílio

(Por Roberto Marques)

“A experiência do viver tranca o homem,

cada vez mais, em si mesmo, aconselhando-o

a sarar, sozinho, todas as escoriações da alma.”

 

Um facho de dor me ofusca. Diz-me uma boca lânguida e furtiva: “Se já não consegue ser feliz, corre em busca da ilusão de sê-lo!”. Acordo exasperado, com a impressão de ter ouvido ao longe uma canção suave, doída de saudade e restos. Resquícios que já foram quase tudo e jamais mereceriam desvanecimento.

Mas o medo e o tempo, com a frieza do dia silenciando o burburinho da noite, vão tecendo sua força ao redor. Escapam as essências pelas frestas da minha relutância. Sussurram um áspero aviso de descaminho de identidade. Trago a ignorância pela mão, com viés de indiferença e disfarçada sanidade.

Enfileiram-se as futilidades colecionadas desde os anos mais remotos.  Estas coisas que quase todos buscam com avidez e urgência. Vão tombando uma a uma. Já não consigo dormir nesta ânsia abafada de despertar.  Vislumbro uma horda de mortos-vivos, como se ainda estivesse em um pesadelo. A tribo me observa. Ainda menos me entendem, quando escolho não morrer. Tal qual fosse um esperanto, com sua proposta universal, minha língua é entendida por poucos. E cada vez menos. Mesmo que seu princípio primordial repouse na simplicidade.

Já ouço as buzinas da impaciência, anunciando mais um dia de aflição e tropelia. Um raio vazante me espia. Onde estaria o leste, mesmo? O sol é incansável. Tentará iluminar mais uma vez.

Queria, em uma destas manhãs, ouvir uma voz consonante e meiga. Alguém que, por acidente do destino, uma piedade cósmica qualquer, viesse visitar minha turbulência. Como um antivórtice, aplacasse seu ritmo tresloucado. Assim, talvez, ouviria a resposta imaculada, melodiosa, serena e não mais a estridência interminável dos sofismas.

A sobrevivência me aguarda. Aceito a parte que cabe ao instinto. Por vaidade, escolho a roupa mais surrada. Navego entre os desatinados. Escapo. Outro, não. Jaz seu corpo ao chão, porque alguém avançou o sinal.

O rebanho não escolhe o caos. Fará escolhas sem onisciência. Nenhum sufrágio é verdadeiro. A contaminação é insidiosa e implacável. Também o que penso, pouco foge a seu alcance. Por isso, não quero a pretensão da verdade em minha boca.

Desvio, por instantes, o olhar irascível. Visito os parcos amores que tive e tenho. É donde vingam redenção e sentido. Acabam por reescrever-me um pouco. Basta-me, por algum tempo, que o mundo é ver e doer. Um facho de dor me ofusca e acabo por cerrar, amiúde, as janelas da alma.

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