Uma arma carregada no meio de São Francisco

(Por Felipe Basso)

“Não encontrei, até hoje, uma só razão

para que alguém se matasse.”

 

O suicídio é a única questão filosófica verdadeira, exaltava um revoltado Camus, há algumas décadas atrás. Camus nasceu na Argélia, foi existencialista e “o último amigo de Sartre”, como o próprio Sartre o chamava. O filósofo tinha lá seus motivos para pensar no suicídio.

O cronista Antônio Maria, autor da epígrafe desta crônica, nasceu em Pernambuco, mas viveu a maior parte da sua vida no Rio de Janeiro, onde o suicídio não existe como questão filosófica. Talvez, nem como questão.

“O único suicídio possível é não conhecer o Rio de Janeiro”, talvez dissesse um Maria, levemente embriagado num boteco carioca, se lhe sentasse na mesa o filósofo argelino.

O assunto já me deixou longas noites pensativo. Não em atentar contra a própria vida, acho que nunca chegaria a esse ponto, mas no ritual da coisa toda.

O músico Arnaldo Baptista tentou a morte se atirando da janela de um hospício num festivo 31 de dezembro, dia de aniversário da sua ex, Rita Lee. Ela o havia internado contra a sua vontade e aquele salto do terceiro andar era pra ser uma resposta bem clara e definitiva à respeito da atitude da companheira. Todo suicídio precisa de uma significado senão é apenas morte acidental.

E não é só o dia. Tem ainda outros tantos fatores. Por exemplo, qual o horário mais adequado, manhã, tarde ou noite; local, o terraço do prédio mais alto da cidade, a banheira, o sítio da família; deixar ou não o bilhete (ah, o bilhete), o bilhete, para mim, valeria um livro!

E se não der certo? Já pensou na frustração do indivíduo? Estudos mostram que 98% dos suicidas que se jogam de pontes, morrem. É a forma mais segura de não falhar. Inclusive, a famosa ponte Golden Gate é chamada de “uma arma carregada no meio de São Francisco”. Desde sua inauguração, em 1937, já são mais de 1,7 mil suicídios no local, registrando a incrível média de um a cada duas semanas. Todos mortinhos, mortinhos. Dos que tentam a morte com veneno, só 15% conseguem. Overdose? Doze por cento. O clássico cortar os pulsos só mata em cinco, eu disse cinco por cento dos casos. Parece que a tarefa requer habilidade, planejamento e informação. Tipo, suicídio não é assunto pra qualquer vivente.

Para constar. Camus morreu aos 47 anos em um acidente rodoviário. Antônio Maria, aos 43 anos de um enfarte no miocárdio. E Arnaldo Batista está com 65 anos e vivinho da silva. Conclusão barata: Quem diria, o suicida, no fim das contas, é um apaixonado pela vida.

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