Mulher bem agradecida

(por Dora Almeida)

“Mulher diz uma frase que, perante as leis civis e religiosas,

deveria instituir justa causa para anulação de matrimônio: “Vista um suéter, meu bem.”

 

Alice era uma mulher muito bonita. Bonita e bem-agradecida. Agradecia a Deus e a Santo Antônio o marido que a havia amparado quando mais precisava. Mocinha ainda, com um filho na barriga, vergonha da família, encontra Heitor, ex-seminarista, que casa com ela e assume a criança.

Agradecia mais ainda a Heitor. Lavava e passava suas roupas com carinho e perfeição para que ele, funcionário do Banco do Brasil, estivesse sempre muito alinhado, fizesse uma boa figura. Eram muitos os cuidados e agrados – não esquece o guarda-chuva, meu bem; pega o casaco que vai esfriar; coloca esta gravata que combina mais com a camisa azul. Alice sempre linda, perfumada, esperando o marido no final do dia. Casa impecável, jantar perfeito. A sobremesa, sempre ao gosto do marido, não faltava nunca.

Heitor, achando tudo maravilhoso — Alice lembrava sua mãe, quando ele era criança, cuidando dele e dos irmãos. Uma lembrança distante, pois, vivendo no seminário desde muito novo, carecia de cuidados maternos e do convívio familiar. Agora tinham mais dois filhos, bem criados, uma família. Alice, tomando conta de todos. Controlando tudo. Heitor, aos poucos, virando seu filho mais velho.

E aí, as coisas, sutilmente, foram mudando. Heitor, cansado do amor sufocante da mulher, começou a chegar tarde do trabalho, não queria mais saber do jantar que ela preparava. Cansara de ser mimado e controlado. Até o sexo ficou escasso. Alice, tão maternal, inibia o marido – quem gosta de transar com a própria mãe?

Foi então que Heitor conheceu a Zefinha. Nem era tão bonita assim, nem tão atraente. Mas ele caiu de amores por ela. Começaram a sair juntos. Zefinha não dava a mínima se a camisa de Heitor estava amassada ou se a meia não combinava com o sapato. E Heitor descobriu um outro mundo, no qual podia usar a roupa que quisesse, a gravata que bem entendesse, esquecer o guarda-chuva ou o casaco de lã. O jantar não era lá essas coisas, é verdade, mas quem se importa? E o sexo, com Zefinha, era bem melhor e bem mais frequente — ela não lembrava em nada a figura materna.

Daí para o divórcio foi um passo. O juiz até parecia conhecer os dois. Rapidinho, deu a sentença, nem tentou uma conciliação. E aquela, que era para ser uma história do tipo “felizes para sempre”, acabou.

Na saída do cartório, chovia a cântaros. -– “Vou te dar uma carona de sombrinha até o carro. Vi que esqueceste o guarda-chuva. Assim podes pegar um resfriado”.

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