Alma lenta

(Por Vanessa Conz)

“O corpo é espiritual. O espírito nem sempre.”

Neste meu corpo pesado, a alma escorre lenta e viscosa. Enquanto os bem-te-vis acordam leves, desperto com a carga do mundo. Os ponteiros do dia são como passos morosos que buscam a noite, único lugar onde me encontro. Onde te encontro.

Sou humana, nasci com grossos defeitos. Não sou celeste como os pássaros, nem tenho asas, quando muito sinto vultos da minha alma enquanto sonho. Pelos dias, carrego um corpo do qual dependo inteiramente – até para tocar em minhas emoções. Que espécie estranha sou eu: dependo do meu esforço para espiritualizar-me. Mais estranho ainda, por vezes nem prezo por voar.

Mas não desisto – se o instrumento é o corpo, é com ele que irei
despegar-me. Olhos também são para fechar e olhar para dentro. Já me carreguei para lugares tão altos que as nuvens bateram em mim. Por alguns segundos senti que voei nos braços. Senti que fiquei um pouco azul.

Mas parte do defeito humano é não querer voar só. Por isso teu corpo também me alça. Tuas mãos me sequestram do chão. Quando estou contigo, a gravidade é uma força que não me segura. Sinto que os espíritos estão entranhados no corpo ou ao menos repousam neles. Esperam dia e noite que os acordem. Sinto que podem ser tocados, reparados e até fabricados.

Nunca terei alma de bem-te-vi ou pássaro algum. Mas sei que posso ter várias dentro de mim. Agora, por exemplo, tenho a minha, a tua e uma terceira, que nós plantamos juntos em algum voo.

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