Cá entre nós

(Por Luciana Farias)

Tenho todos os defeitos que, nos outros, detesto.”

Não me leve a mal, amigo. Nem você e nem eu temos condições de julgá-los. Se eles são vis e nos governam, é porque somos ineptos e desleixados. Eu sou vil, inepto e desleixado. Você também. Seu olhar de surpresa não me causa constrangimento algum. Ao contrário, alivio-me em compartilhar minha vileza com você. E não estamos sós. O subsolo moral é deveras povoado. Não estamos no grupo dos retos, dos bons, dos iluminados. Vendemos a falsa imagem para puro autolocupletamento. Também baixo os olhos de vergonha por minha índole rasteira. Mas só aqui entre nós. Em público, você também se esconde atrás das gravatas de seda importada. Nas reuniões de família, fazemos coro com as senhoras indignadas pelos costumes degradados e brindamos à formação exemplar de nossos filhos. “Lá em casa ninguém fura fila ou passa no sinal vermelho!” Muitas vezes, eu mesmo acredito em minha pregação puritana. Imagino que o amigo proiba seus pequenos de assistir àquele descaramento das novelas noturnas. Comigo passa o mesmo. Durante o noticiário, inclusive, demonstro minha revolta de classe média contra a corja que ocupa a Capital do país. Isso mesmo. Aqueles para os quais nos vendemos diariamente, aqueles que nos contratam por fora, aqueles que nos pedem notas frias. Ora, meu caro, vai negar? Se não estão nos gravando agora, já o fizeram antes. Não, não se assuste. Se cairmos, eles caem. E eles não querem cair. Temos trabalho por bastante tempo. Enquanto durar o estoque de canalhas, nossos telefones não pararão de tocar. Você, com essa cara de espanto, nem parece o macaco-velho que eu sei que você é. Ouvi muitas histórias suas, assim como você deve ter ouvido as minhas. Detalhes inverídicos? Quem se importa, se a essência da lama é sempre a mesma? E estamos até o pescoço. Sim, senhor! Somos reles e desprezíveis. Pior que ordinários. Exatamente como eles. Nunca seremos pegos. É a vantagem desse país. Nossos tataravós chegaram aqui com o mesmo propósito, não se iluda. É genético, hereditário, intrínseco à nossa linhagem. Tomamos o que podemos e parecemos ilustres cavalheiros da sociedade. Não ria! Estou abrindo-lhe meus sentimentos, pois somos irmãos na baixeza e na indignidade. Peça outro uísque, por minha conta. O dono deve-me favor.  Pouca gente aqui não me deve alguma coisa. Você sabe como tudo isso funciona, meu caro. Só muda o endereço. Sim, e o preço! Depois de duas doses você já está fazendo piada? Eu aqui falando sério, tentando ordenar os pensamentos dentro dessa filosofia miserável, e você de bom humor? Teríamos de ter vergonha na cara, hombridade, coragem suficiente para sair dessa vida. No fundo, não queremos pertencer à banda podre. Mas como, no fim do mês, pagar a escola bilingue das crianças? Boa educação é tudo na vida. É, companheiro, a luta pela sobrevivência não é fácil. Antigamente era mais tranquilo, com menos gente no ramo. Depois, proliferou. Como você e eu, está cheio por aí. O bom é que tem trabalho para todos. Reuniões de manhã à noite. É, por telefone não dá mais. É um entra-e- sai de carro blindado em garagem de órgão público como nunca se viu. O tempo que se perde?! Estou pensando seriamente em pedir um motorista deles emprestado. Sério mesmo! Fui multado três vezes mês passado por estacionar em lugar proibido. No fim, eles resolveram tudo lá em cima e me liberaram. Mas, sabe como é, sempre um transtorno. E você, correndo muito por aí? Imagino. Depois dizem que a gente tem a vida fácil. Bom, meu amigo, estou atrasado para encontrar o chefe. Aqui estão os documentos. Trouxe a maleta?

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