Guri da Garoa

(Por Linda Grossi)

“As crianças têm a boca mais

comovente que os olhos” (Antônio Maria)

Sou daquelas gaúchas que morrem de orgulho de ser gaúcha. Canto o hino rio-grandense com o peito estufado, articulando todos os esses e erres. Peleio com quem ousa dizer que nosso churrasco não é o melhor do mundo. Digo a todos, sem pestanejar: aqui estão as pessoas mais cultas, educadas e, principalmente, as mais bonitas no Brasil.

Meu coração gaudério sofreu quando passei uma temporada longe dos pagos. Foram cinco anos vivendo na caótica São Paulo – tempo de muito trabalho e saudades. Com apenas sete meses, bebezinho, lá o meu pequeno foi morar. Sem avós ou tias por perto, meu gurizinho ganhou uma escola como companhia. Entrava as sete e meia e saia às seis da tarde. Todos os dias.

Quando começou a balbuciar “Mamãe”, fiquei toda prosa. Via seu repertório, semana após semana, crescendo que era uma barbaridade. Sabia todas as músicas do Cocoricó e Backyardigans. Sem dúvidas, era encantador vê-lo descobrindo o mundo. Mas, um dia, me caíram os butiás do bolso: “Mamãe, eu amo voxê”. Fiquei imóvel. Hipnotizada. Custei a acreditar no que havia escutado. Sofri ao perceber que o mundo dele não era igual ao meu.

Uma flecha cravada no peito. Como assim “voxê”? Nem reparei na declaração de amor. Não conseguia parar de pensar naquele “voxê, voxê, voxê”. Meu gauchinho tinha se tornado um paulistinha. Como sou bagual que não se entrega, tratei logo de corrigi-lo. Eu tentei. Juro que tentei. E como tentei. “Não é você, é tu”. A resposta rápida: “Não sou eu, é voxê mesmo, mamãe”. Com dó, aceitei que não tinha como ser diferente – ele passava mais de oito horas por dia ouvindo “você” de seus colegas e professores…

Como o mundo dá voltas, muitas voltas, acabei voltando para o Rio Grande. Dias de sol brilhando sobre a querência amada. Dias de interrogação para o meu guri – não lembrava que, aqui, tudo o que se planta cresce e o que mais floresce é o amor. Suas lembranças eram todas da terra da garoa.

Os primeiros meses não foram difíceis. Com muito espaço para andar nas coxilhas e sentir as flechilhas das ervas no chão, fez novas amizades e conquistou seu espaço. Não chegamos a tempo do 20 de Setembro, mas eu tive o prazer de comprar uma pilcha completa para a primeira festa de São João. Mesmo estudando num colégio tradicionalista, que tem o nome da maior revolução do estado, o “voxê” insistia em aparecer em todas suas falas.

O vento passou. O tempo soprou. Demorou, mas meu colorado aguerrido e bravo, enfim, se tornou o gaúcho que tanto sonhei. No domingo do Grenal 400, todo sujo e suado, ele resmungou: “Nem vem. Não vou pro banho agora, tchê! Quero ver os gols do Inter no Fantastico”. Fantástico mesmo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s