Estranhamente raiou o dia

(Por Felipe Basso)

“É-se feliz, vá lá, de esperança

ao lado de uma mulher” (Antônio Maria)

São novamente nove horas e eu me pergunto o que faço nessa cidade estranha, nessa noite estranha, nesse bar estranho, falando com essa gente estranha.

O dia recomeça e eu não entendo porque permaneço nessa imensa e estranha sala, fazendo perguntas insensatas a desconhecidos sobre assuntos completamente desnecessários, redigindo centenas e mais centenas de parágrafos.

Anoitece e eu me encontro dentro dessa estranha mulher, nesse quarto de hotel sem vida, sabendo que para ela não passo de um estranho, vindo de algum lugar distante e que irá embora antes que estranhamente raie o dia.

Que estranha espécie de felicidade eu estou procurando?

Vazia é a vida quando se é um estranho. Quando se é um estranho, o tempo não passa, e se o tempo não passa, a vida não acontece. E se a vida não acontece, a esperança nos despedaça, humilha, machuca.

Que tristes e pobres são esses moços traçando, a sós, seus caminhos, zombando da intimidade e que, assim, maculam o sofrimento com o falso verniz da ironia. Que estranhas essas criaturas que acreditam que mascarar a dor com gracinhas e deboches é mais suave (e elegante) do que aceitá-la.

Talvez essas palavras lhe soem estranhas. Quem sabe, a crônica inteira lhe pareça assim. No entanto, tudo se tornou muito claro: pelo acaso ter decidido me fazer sentar ao seu lado naquela noite, por eu ter me esforçado para vencer minha timidez e meu cansaço, por eu ter perguntado se você tinha alguma coisa para fazer mais tarde, por você ter esboçado um sorriso e levemente inclinado o rosto, por perceber minha falta de jeito e meu constrangimento, por ter usado a sua mão direita para ajeitar o cabelo atrás da orelha esquerda, e por você ter dito que sim, que podia ficar mais um tempo ao meu lado, mas que precisava ir embora meio cedo porque tinha filho esperando em casa, por você ter notado o meu entusiasmo e entender que eu já estava me apaixonando, por ter decidido sacrificar um tempo precioso com o próprio filho para ficar mais um tanto, enfim, por nada mais do que isso e por isso tudo, você me devolveu a esperança de amar novamente, a esperança de ter finalmente encontrado alguém para andar de mãos dadas comigo, que é como, desde o início, eu desenhei a felicidade.

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