o gato da vizinha

(Por Dora Almeida)

“Tinha medo da mulher. De grito não, nem de pancada.

Tinha medo que ela o enganasse.”

Antônio Maria

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Traição dói, mas não mata. O Tavares sabe disso. Não tem medo da morte, não tem medo da dor, mas tem medo da mulher e da dor de ser enganado por ela. Franzino, um pouco calvo, de sorriso fácil e muito valente, não tem, mesmo, medo de nada. Nem de altura ele tem medo. Socorreu a loira do décimo andar quando o gato dela se pendurou na sacada. Fora traição, não tem, mesmo, medo nenhum. Nem de médico, nem de doença. Até faz o exame de próstata todo ano e nem reclama se fica doente.

A Belinha, mulher do Tavares, admira o marido pela sua valentia. Vive se gabando – com o Tavares vou a qualquer lugar. Homem corajoso taí.

O que ela não sabe é que ele tem um medo enorme. Inconfessável. Medo dela, medo de ser enganado por ela.

Sabe que não pode dar mole. Sair uma ou duas vezes por semana com os amigos, vá lá, mais que isso a Belinha não deixa. Diz que vai se sentir abandonada. E ele obedece, morrendo de medo dela se sentir abandonada. Mulher que se sente abandonada, trai na primeira oportunidade, é só encontrar o cara certo – pensa.

Bonita, vistosa, bem mais jovem que o Tavares, mais alta que ele, Belinha provoca os olhares dos homens quando passa, meneando os quadris, coisa mais linda e cheia de graça, que nem a garota de Ipanema, só que mais crescidinha. O Tavares fica louco quando vê – e se ela gostar dos olhares deles? Se ela passar a mão nos cabelos é porque gostou. Ai, minha Nossa Senhora! Ela ajeitou o cabelo com a mão. Pronto! Sinal que gostou.

No bar com os amigos ele ouve o conselho:

– Cuidado, Tavares! Abre o olho com essa mulher, é muita areia para o teu caminhãozinho!

Tavares olha o relógio: está na sua hora. E vai embora mais cedo que o habitual. Passa no supermercado, compra um vinho, flores e apressa o passo. Chegando defronte ao prédio onde mora, olha para cima e vê que a luz do quarto está acesa. Começa a bater o pavor – por que ela não está na sala vendo a novela? Será que está com outro? E se estiver? Como é que eu vou enfrentar a turma depois? Ser traído é uma coisa, ser chamado de corno, aí a coisa já muda de figura.

Coloca a chave na fechadura e vê que está trancada. Toca a campainha, quase em desespero.

– Quem é?

– Sou eu Belinha, abre a porta, diz ele, com a voz fraquinha de tanto medo. Será que ela está sozinha?

Belinha se joga nos braços dele:

– Ouvi um ruído na sacada, graças a Deus você chegou.

– Pode deixar, minha doçura, estou aqui, vou ver o que é.

Belinha espera, tremendo, com o vinho e as flores nas mãos. Ouve o ruído novamente e vê Tavares, sorrindo, com o gato da vizinha nos braços.

– Era só o gato de novo.

Feliz, ele devolve o gato e vem para os braços da Belinha. Hoje, não sente medo nenhum. Ainda sorrindo, pensa: Não havia mais ninguém na casa. Procurei por tudo, dentro do armário, atrás das cortinas, até embaixo da cama. Era só o gato.

Belinha coloca as flores num vaso e ele abre o vinho. A noite promete.

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Mais um dia de Tereza

Por Zulmara Fortes)

“Na vida conjugal, o homem precisa dizer besteiras constantemente.

Senão não é marido. É uma visita.” (Antônio Maria)

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Tereza acorda o marido pontualmente às seis e vinte. Ao sair do banho, ele encontra, sobre a poltrona, a roupa passada e escolhida pela mulher. O aroma do café na mesa o convida a descer. Queixa-se de uma gastura que o acompanha há dias. Tereza pergunta se quer que marque uma consulta. Ele não acha necessário. Um antiácido basta. Anda cansado. Tereza propõe uns dias de férias. Faz tempo que não saem todos juntos. Quem sabe Fortaleza? Imagina! Esteve lá ano passado para um congresso e detestou. Cidade suja. Trânsito horrível. Tereza pede que ele sugira outro lugar. Mas não pode se afastar da empresa agora. Ela retira a mesa calada, enquanto ele volta ao andar de cima. Já de saída, casaco e pasta na mão, chega perto dela, beija-lhe, acaricia-lhe os glúteos e promete tentar chegar menos tarde esta noite. A mulher sorri com os olhos.

Lá vai Tereza.

Ela liga o rádio da cozinha. Aumenta o volume; está tocando uma de suas músicas preferidas. Sobe as escadas cantarolando e acorda cada um dos filhos com afagos e beijos. Já é hora, meus amores. Está um lindo dia de sol, diz a mulher abrindo as janelas. Enquanto as crianças disputam quem vai usar o banheiro antes, Tereza prepara as merendas com carinho. Adora mimar a família. Às sete e meia da manhã, a mesa da copa é uma algazarra só. A mãe apressa os filhos para que não percam a hora. Sua manhã passa rápida e tranqüila, entre panelas, vassouras e cantorias. Ainda conta com a preciosa ajuda de sua garotinha, sempre querendo participar de tudo.

Lá vai Tereza.

Perto da meia hora, os meninos chegam da escola famintos e cheios de histórias para contar. O mais velho está se interessando por uma colega e o outro se mete a conselheiro sentimental. Daí começa um bate-boca. A escola tem uma professora de Educação Física nova que está apostando no Atletismo. O menor tirou primeiro lugar na corrida. Está todo garboso. A menina bebe cada palavra, enquanto eles roubam as batatas fritas do prato dela. A hora da refeição vira uma choradeira e a mãe tem que intervir.

Lá vai Tereza.

À tarde leva a garotinha para a escola e os meninos para atividades extraclasse. Depois vai às compras, encontra amigas, dá uma passadinha na casa da mãe, leva flores, volta para casa, percebe que esqueceu o remédio do marido, sai de novo, compra antiácido e aproveita a promoção de um esmalte novo. De volta à casa, prepara uma salada de frutas, marca dentista, experimenta o esmalte, mas não consegue fazer a manicure porque está na hora de buscar a filha na escola. Final da tarde a casa vai-se acalmando. Tereza ajuda a filha no banho, depois recorta figuras de revistas para um trabalho escolar. Propõe um mutirão e cada um faz sua parte para deixar a casa em ordem antes de o papai chegar. Anoitece. As crianças estão cansadas e com fome. A mãe arruma a mesa para os pequenos, mas prefere esperar para jantar com o marido.

Lá vai Tereza.

O homem chega reclamando do calor, tira o casaco e os sapatos na sala mesmo. A mulher oferece chinelos. Afrouxando a gravata, joga a pasta em cima do sofá, liga a televisão e beija Tereza, com os olhos grudados no telejornal. A mulher serve o jantar e abre uma garrafa de vinho. Ele elogia e ela diz que escolheu no mercado hoje – pelo preço, já que não entende do assunto. Ele reclama que por causa de um acidente na Perimetral atrasou-se uma hora pela manhã. Pergunta pelas crianças e ela responde que a pequena já dormiu e os meninos estão no quarto. Ela pensa falar de como foi seu dia e dos filhos, do encontro que teve, por acaso, com uma colega de faculdade, da saúde da mãe, da otite do cachorro, mas lembra-se do conselho do pai: “não ocupe seu marido com assuntos domésticos se quer mantê-lo longos anos com você”. E cala-se. Um dos meninos desce e cumprimenta o pai com alegria e começa a tagarelar. Conta, feliz, as novidades da escola. O pai pergunta como vão as notas, se tem se comportado bem e se já fez seus deveres. O garoto tenta falar de futebol, mostra seu álbum, convida o pai para brincar, mas a conversa segue neste tom formal até que o pai atenta para um documentário que a TV a cabo está mostrando. O menino se aborrece e a mãe faz sinal de silêncio com o dedo indicador na boca.

Lá vai Tereza.

Ela sobe e leva o filho pela mão. No quarto, diz aos dois meninos que desliguem a luz e tratem de dormir. Dá uma espiada na menina e ajeita-lhe o travesseiro. Enquanto o marido se distrai com a televisão, ela lixa as unhas. Depois vai para o banho pensando em tudo o que precisa fazer amanhã, desde as refeições até levar o cachorro no veterinário. Em seguida retira a colcha da cama e acomoda-se sob o lençol perfumado. Percebe quando o marido desliga a TV da sala e sobe. Ele vai tirando a roupa e deixando pelo chão. Dirige-se ao banheiro. Na volta, observa que o aparelho de ar condicionado é novo. Questionada, Tereza responde que foi trocado, o outro estava com defeito. Demorou a perceber, parece que nem mora aqui, ela diz em tom de brincadeira. Ele se deita, dá uma bolinada na mulher e diz que ainda bem que não casou com uma dondoca incapaz de tomar decisões na sua ausência. Fazem o bom e rotineiro sexo de sempre. Antes de adormecerem, Tereza diz que o pai deve conversar com o filho mais velho. Ele está se interessando por uma menina, talvez precise de orientação – dicas de quem já foi especialista no assunto, provoca ela. Ele resmunga que sim, mas ela acha que ele nem escutou.

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Quanto tempo?

(Por Vanessa Conz)

“Um homem – o melhor deles – é feito apenas de dor e orgulho”

(Antônio Maria)

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Quanto tempo durará, no ar, o rastro de perfume de alguém que acabou de sair de casa? Quanto tempo durarão as flores, que pela última vez foram colocadas no vaso da sala? Quantos dias passarão, até que o lençol, não lavado, abandone os últimos fios de cabelo de quem se foi?

Ele está sentado no sofá há cinco horas desde que ela partiu. Para sempre. Pela cabeça, perguntas vagam como balões e, na mesma velocidade com que surgem, desaparecem, sem que as respostas as alcancem. Olha o cômodo ao seu redor como nunca fez antes. Não interessa os motivos da partida. Não interessa chorar. Não interessa pensar em meios de trazê-la de volta.

Pensa nos breves momentos de vida que perdeu e que aconteciam na sua frente. Sozinho, não saberá carregar o lixo para rua. Separar o orgânico do seco. Dar água para as plantas. Com quais plantas ela conversava? Não saber essas coisas lhe doía mais do que toda a humilhação causada pelo que ouvira dela. Nem mesmo a escutou por completo enquanto ela fazia as malas e o apunhalava. Nesta hora, chegou a reparar na forma com que ela, mesmo ofegante e raivosa, ainda dobrava perfeitamente as roupas antes de atirá-las na mala.

Acreditava piamente, dentro de um orgulho disfarçado de lucidez, que o fracasso era irreversível, perdera-a em todos os segundos, minutos e horas dos últimos anos em que não olhou para aquela sala como fazia agora. No entanto, aquela distração, embora parecesse imperdoável, jamais poderia ser chamada de desamor ou desafeto.

Quanto tempo durará um feixe de sol, que penetra a casa e exige a cortina de braços abertos? Por quanto tempo um cesto de maçãs decorará a cozinha sem que comece a enrugar o ambiente? Quanto tempo durará, no coração de um homem, traços de arrependimento, quando este mal os conhece? Quanto tempo leva um homem para perdoar a si mesmo por ter amado e não ter percebido?

Pergunta pro Maria

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Hoje tem seção Pergunta pro Maria e a autora é F.

F.

“Maria (posso ser tão íntima?)

Você é minha inspiração. A cada manhã, só digo as primeiras palavras depois de ler o que você escreveu. Às vezes, não sorrio: você está azedo, ou triste. Às vezes, choro: você está poeta. Às vezes, faço minhas tarefas cantarolando de prazer. O problema é que meu marido perdeu o emprego e disse que não poderei mais comprar o jornal. Estarei traindo se ler sua coluna na banca?”

Beijos, F. eternamente sua

Maria

Fico muito lisonjeado com suas palavras! Mas se seu marido está desempregado, não seria interessante lembrá-lo que no jornal há classificados?

 

Dose Dupla

(Por Tiago Pedroso)

“Existe o homem e existe a vida.

Acontece que a vida é muito mais forte que o homem e faz dele o que bem quer.”

(Antônio Maria)

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Encontraram-se, por acaso, em um desses bares Dela. A Vida, dura feito costuma ser, e o homem, desmilinguido como nenhum homem deve mostrar-se diante desta.

Constrangido, não a encarava. Ela, cheia de si, pediu outra dose: “Dupla!”.

Já tiveram outras vezes essa conversa. Chegam sempre às mesmas conclusões: que não foi essa a que ele pediu a deus… Que ela passa muito rápido… Que cada um deve cuidar da sua…

Sentados assim, o homem e a Vida, na mesa do canto, num desses bares Dela, não levantam suspeitas – estão ali medindo forças. homem fraco esse, merece a letra minúscula no início da frase.

O que ela queria, mesmo, é que ele a agarrasse nos ombros, lhe estreitasse junto ao peito, olhasse em seus olhos e a beijasse na boca. Com fome e com força. Uma força desumana que, sendo apenas um homem, jamais teria.

Ele, semblante congelado, os braços cruzados sobre a mesa. Para espanto dos que observam a vida alheia nos bares, é passivamente esbofeteado no rosto. Resignado. Em silêncio. Até que lhe quebre o orgulho e a cara.

Agora remendado, é ele quem faz o pedido: “garçom, outra. Dupla!”.

Quem viu a cena garante que esse largou aquela vidinha. Não mais foi visto nesses bares, com mesas de canto, onde há cronistas observando as surras que Ela aplica.

Nossa Majestade

(Por Rubem Penz)

“Sou hoje um homem tão velho e tão sem razão,
que tenho imensa vergonha de falar na primeira pessoa.”

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Agora estamos assim: cheios de dedos, pruridos, dodóis. Estamos com medo de tudo e de todos. Até mesmo da nossa própria (e longa) sombra, pois nos fizeram crer que, com a idade, vem a sabedoria. Com a idade, vem a justiça. Com a idade, a verdade vem e se instala. Merda nenhuma!

Agora estamos assim: quando surge um dilema, um problema, a complexidade de um teorema, olham todos para nós. Esperam que brote de nossa experiência o bálsamo translúcido da concórdia. Desejam de nós a solução mansa para cristais em choque. Merda nenhuma!

Agora estamos assim: em palpos de aranha. Sem desculpa, sem saída, sem graça. Como alcançar a liberdade histriônica do palhaço quando nos vestem, sem consultar, o manto sagrado dos magos? Como dizer que desejamos mais confundir do que explicar sem parecer ignomínia? À merda!

Agora estamos assim: eleitos conselheiros, monges, gurus. E quando demora para sair determinada resposta, não é dúvida atroz – é serena reflexão. E quando nos custa fisicamente reagir, não é mera falha dos reflexos – é prudência pura. E quando nos é impossível tomar partido, não é insegurança – é equidistância aos polos tão ridiculamente radicais. Merda, merda, merda!

Pois é, agora estamos assim: uns velhos.

E, porque velhos, despidos da infante inocência, roupa a qual, mesmo que ainda nos sirva como luva, não nos permitem usar. E já transcendemos o indivíduo para sermos considerados instituição. É triste, colega: se erramos, falha uma geração inteira. Carregamos nas costas o peso da tradição. Migramos de vela para leme. Estamos abaixo da linha d’água e nunca mais o vento da novidade moverá nossos cabelos. Por isso nos querem de cabelos curtos: para não termos saudade do vento. Todos merdas.

Agora já não mais estou, é estamos. E quem disse? Agora já não sou é somos. E quem garante? Agora já não tenho, é temos. Mentira! É chegada a hora da partilha. Fim da propriedade. Para que desejar se ninguém leva essa merda, mesmo? Do tudo ao nada. Mas com honras de Soberano. Grande merda.
Vá rindo. Aproveita a juventude e sua vistosa primeira pessoa. Quando chegar a hora do plural majestático, cetro e coroa que dispensaria com prazer, você lembrará de mim, seu merda!