Enterro dos Ossos

(por Mariana Marimon)

“Digo-me muitas vezes: que bom não ser poeta! Que alívio interior, que descanso, o de não gerar!”

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Desejo escrever teu corpo em poesia.

Falar-te dos teus olhos estranhos e do teu olhar enviesado. Falar de quando vejo refletida no mel que cerca tuas pupilas a fome proibida que revelo nas minhas. E dos teus cílios, compridos e enigmáticos, que acariciam minha face cada vez que me tocam, bem de perto.

Quero te contar dos teus braços delicados que se encaixam no aperto de meu punho, mas que não se machucam, não… Porque apesar de frágeis eles possuem uma força tão grande que surge do teu desejo nada oculto de um toque bruto, apaixonado. Ou das tuas mãos quando ficam a mercê dos teus dentes, daquele jeito (aquele assim, de me provocar) quando estás a pensar exatamente naquilo que eu quero te fazer.

Queria que soubesses, por meio dessas curtas linhas, sobre o calor que tem os teus cabelos. Descrever-te quando eles se enrolam desajeitados nos próprios cachos negros e caem molhados por cima de teus olhos e emolduram o teu grito quando, enfim, tiras a mão da boca e agarra ele todo para trás…

Poderia, também, tentar te fazer entender o alívio que tem o teu enlace. O de braços, o de pernas, o de que nem eu compreendo bem como. Me sinto livre no teu abraço. Pois que ainda que teu corpo me faça de refém da sua juventude, a tua pele me envolve úmida e nua, deixando claro que nada no mundo é maior ou mais importante do que nossas migalhas.

Pretendia falar, finalmente, das palavras que escorrem por tuas costelas, que tratam de amor e da vida e tudo aquilo que importa realmente. Mas não, não fui eu quem as escreveu. Eu sou apenas um ávido leitor – de mãos e lábios – do teu corpo que já foi marcado, que já foi escrito.

Um dia queria ser poeta para dar-te tudo isso.

Eu não sou.

Teu corpo já é por si só.

E talvez isso me baste. Porque não adianta querer ou não querer ser poeta, quando na verdade não se sabe gerar poesia, quando só se sabe de verdade viver poesia.

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