O sono dos justos

(Por Roberto Marques)

 

“Tristeza é um estado acidental desconcertante,

que descompõe o homem moralmente, tanto quanto a braguilha aberta.” (Antônio Maria)

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– Felicidade é uma menina descalça correndo à noite pela pradaria, enquanto a fera dorme seu sono raso e atento.

Há um pasmo silêncio quando finalizo a frase. Um desconforto espesso. Nunca é natural o olhar fatídico sobre algo que beira o sagrado. Observo os sinais de alerta e de pânico quando alguém entreabre a porta do desalento.

Mas trago comigo uma tristeza afável. Egocêntrica. Nem tão densa que me faça exíguo o ar ou tragam peso às minhas pernas, nem tão etérea que passe despercebida quando uma breve alegria me alcança. Está lá, aninhada em meus deveres, enrodilhada como o pergaminho onde arrolo meus remorsos mais antigos.

Quando me compadeço das dores pungentes dos sobreviventes do genocídio de Ruanda ou de outros tantos com suas camufladas variantes, ela, em paradoxo, se apequena.  Se imagino o íntimo e gélido cárcere dos loucos, que não suportaram a verdade explícita e crua, cubro-a, confortavelmente, para que esqueça o seu frio ameno.

Ainda assim, ela espia o mundo, agarrada à barra da saia do recato. Espera o momento oportuno da libertação, enquanto come, avidamente, na mão da autopiedade. Uma implosão de olhares sóbrios aplacará quem estiver vivendo o tempo de sua eclosão. Mas, claro, é perceptível um raio de amparo através da fresta da curiosidade.

Minha tristeza egoísta é como o luto. Quer saber como lidar com a sede, o desconsolo da falta. Esta receberá desvelo, pois é quando a empatia encontra um caminho reto e familiar. Todos logo reconhecerão seus calos e umbigos.

Minha tristeza primordial é solitária. Beligerante. Quer uma centelha acendendo o senso. Mover os corpos aplastados e as mentes indiferentes. Esta também receberá vigília, pois há sempre quem queira entorpecer qualquer estado de inquietude da alma.

Que a dor possa chegar a termo, mas sem a presença anestésica da complacência. Não me digam a hora de dormir! Nem que eu amanheça troncho, cansado de tanto esperar o sono dos justos.

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