Atire-se na primeira pedra

(Por Rubem Penz)

“Alguém sabe disso: pedra do medo?

É coisa do amor e, certo, alguém sabe.

Se alguém não souber, azar, nunca amou.” (Antônio Maria)

foto 1

Em nosso caminho havia uma pedra. Havia uma pedra em nosso caminho. Seu olhar brilhou de modo indissolúvel diante da vitrine da joalheria. Ali, suavemente repousado sobre um veludo azul turquesa – confortável ninho, delicado estojo – o anel. Nossa, foi o que ela disse enquanto suspirava. Levou as mãos ao o rosto, quase como quem roga. Sorriu aquele sorriso mal disfarçado pelo gesto (aquele sorriso em que não vemos os lábios, apenas as alterações da face) e desviou um olhar de soslaio para mim. Desejava saber se eu tinha visto a cena. Teve a certeza de que sim, havia plateia. Retirou as mãos do rosto para ajeitar o cabelo (revelou bochechas rosadas), respirou fundo e olhou diretamente para os meus olhos. Vamos tomar um sorvete?

Nenhum homem ouviu de sua namorada, noiva, esposa ou amante um claro pedido de joia. Tipo cobrança direta, cartas na mesa, ultimato: faço aniversário agora em abril, dê-me uma gargantilha, pulseira, par de brincos. Muito menos anéis de brilhantes. Elas jamais colocariam etiquetas de preço no amor que nos oferecem. Isso seria a maior anti-propaganda do universo. O sistema feminino é sempre subliminar. Táticas de guerrilha, jamais guerra declarada: no cinema, quando o galã abre o estojo diante da mocinha, apertam nosso braço em suave frêmito de emoção; diante da amiga, elogiam o colar maravilhoso, ao que ela responde, em alto e bom tom (será jogada ensaiada?), Antônio Carlos quem me deu; no shopping, suportando de braços dados nossa impaciência, param defronte à joalheria e…

Agora estou aqui, mais um destro homem com um sorvete de pistache na mão esquerda, uma pazinha na direita e um problema enorme pesando sobre os ombros. Ela jamais voltará ao assunto (aliás, fora algo que nem chegou a ser um “assunto”). Parecerá esquecida de que, poucos passos atrás, mediu nosso amor em quilates. Ela teria mesmo feito isso? Jamais! É uma mulher independente, moderna, descolada. Confortavelmente equidistante das raivosas feministas e das frágeis donas de casa. Porém, mantenedora da milenar arte de manipular sentimentos, chantagear, valorizar-se. Pode estar blefando. Pode não estar.

Ah, tristes dilemas masculinos… Você aí, rapaz, que divide estes corredores cheios de lojas comigo e com a multidão, diga-me com o coração aberto: nas relações de casal, como não temer as pedras do caminho? Quem nunca, atire-se na primeira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s