Ernesto, o Moderno

(Por Vanessa Conz)

“Não há nada mais antigo do que ser contra o sereno.”

(Antônio Maria)

maria volta ao bar

 

Ernesto é o homem mais moderno que conheço, a começar por  intitular-se urbano. Mora num condomínio fechado na rua mais arborizada da cidade, mas diariamente chega ao trabalho irritado com os passarinhos que lhe acordaram. Prefere a imitação dos próprios, bem mais suave e de volume regulável, a qual configurou no seu smartphone.

Regularmente fala mal do transito, um caos, mas se tivesse que andar a pé, Deus me livre, que atraso! Chegar suado e grudento no escritório definitivamente não combinaria com ele. Ernesto adora sua tracker com rodas aro 18, super confort adventure, que apesar de parecer mais perfeita para área rural do que para as ruas estreitas da cidade, jamais engoliu um pozinho de terra. Ernesto precisa de um carro grande e tecnológico, afinal as ruas esburacadas requerem robustez.

Na ultima vez em que Ernesto saiu da cidade, arrependeu-se amargamente. Era um acampamento de família na fazendo do tio. Voltou para cidade com cinquenta picadas de mutuca e o cabelo duro de tomar banho de água do poço. Um nojo.

Gosta mesmo é de andar no shopping, ir ao cinema ver lançamento.
O ambiente é claro, perfumado, sem sujeira e insetos. A roupa quase nem suja. E quando calor, nada que um ar condicionado não resolva. Sua casa, aliás, tem split por todo lado, afinal os verões estão cada vez piores.

Não entende a onda pessimista por trás do aquecimento global. Acha que o inverno está cada vez mais ameno e a cidade nunca foi tão boa. Nem sereno mais pega – a ultima vez que ficou gripado foi por causa de uma brisa na praia, lugar que frequenta cada vez menos, pois já perdeu a paciência com o gruda-gruda de areia.

Ernesto até tem nome de alguém que poderia viver no campo, mas laço em cavalo, só viu nos filmes antigos do Sergio Leoni, os quais adora assistir no seu home theater. Quem laçou Ernesto há muito tempo foi a vida moderna, diria ele mesmo.

Imaginei agora nosso homem urbano emocionar-se, ao ver num filme western, alguns homens cantarolando ao redor de um fogo de chão. Mas no tempo de hoje não dá pra fazer isso, não é mesmo, Ernesto?

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