Volta por cima

(Por Dora Almeida)

   ” Uma fronte descoberta é a beleza da altivez e da personalidade.”

maria volta ao bar 1

Cabeça baixa, mãos no queixo, cabelo caído na testa, no banco de vestiário Domingão repensa sua trajetória no futebol. Moleque ainda, já dominava a bola nos jogos com os meninos da vila. Nessa época ele era Dominguinhos, mas, aos poucos, foi se transformando em Domingão. Aos doze anos passou a jogar no time juvenil de sua cidade natal. Aos dezessete, profissionalmente, no Ponte Nova, na capital. Artilheiro, fazia uma média de 9 gols em 4 partidas, o que atraiu os olhares de todos.

O ídolo de Domingão era Heleno, jogador de futebol dos anos 1940 e 1950, que entrou para a história como um dos maiores craques do futebol sul-americano. Como Heleno, Domingão penteava o cabelo para trás, deixando a testa descoberta. Altivo e arrogante, às vezes beirava a prepotência no trato com os companheiros, mas, diferente de Heleno, tinha uma vida regrada, sem bebidas e sem noitadas. Não tinha amigos boêmios nem frequentava a alta sociedade. Afinal, os tempos são outros. O Clube dos Cafajestes não existe mais e ele também não queria ter o mesmo fim de Heleno, embora admirasse o polêmico jogador.

Por algum motivo, nos últimos jogos, Domingão mostrou-se um fracasso. Nenhum gol. O artilheiro andava cabisbaixo, a torcida não o perdoava, atribuindo a ele as sucessivas derrotas do Ponte Nova. Cabelo na testa, estava bem longe de parecer com Heleno. Foi aí que entrou Adão, o novo técnico contratado para recuperar o time. A pressão para retirada do jogador era muito grande, mas Adão acreditou nele e, na convocação para a final de campeonato, contrariando todos, lá estava Domingão.

É chegada a hora do jogo.  Domingão levanta do banco, junta-se aos companheiros para a oração e entra em campo, ainda de cabeça baixa e o cabelo na testa. O time adversário, aos 20 minutos do primeiro tempo faz um gol. A torcida do Ponte Nova se desespera e começa a gritar – Adão, Adão, tira o Domingão, tira o Domingão!

Domingão ouve o grito ensandecido da torcida e, como que movido por uma força estranha, descomunal, toma conta da bola, dribla os jogadores e faz um gol espetacular. A torcida fica em silêncio, estupefata. Termina o primeiro tempo.

Domingão, no vestiário, pensa em Heleno. Passa a mão no cabelo comprido, coloca uma tiara, e deixa a fronte descoberta. Adão lhe dá um tapinha nas costas e diz – conto contigo.

A partida recomeça. Aos 15 minutos, Domingão marca o segundo gol. A torcida delira. Domingão olha para a multidão, coloca o dedo indicador nos lábios e pede silêncio.

O Ponte Nova ganha o campeonato. Graças a Domingão. Como Heleno, ele sai do campo altivo, de fronte descoberta, agora ovacionado por todos. Aplaudido pela mesma torcida que, minutos antes, o considerara um fracasso.

Coisas do futebol.

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