Psiquê

(Por Roberto Marques)

“Muito mais do que pudesse amar, eu te sofro.

Muito mais do que te queria perto, eu te quero feliz.”

(Antônio Maria)

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Um estilhaço de ti atingiu-me em cheio a fronte. Despertei de vez a cabeça sinuosa: meu amor torto feriu o teu de morte. É tarde, mas deixo apartada minha vontade febril de te ter, para atender o senso. Um olhar póstumo, porém, desta vez, insuspeito.

Não há forma de encobrir o quanto fui injusto. Saber-te tão bem e muito antes, fez com que eu fosse, ardilosa e exatamente, o que esperavas de um homem. E este não era, nem de longe, meu eu autêntico.

Cada desilusão amorosa que trazias à superfície era uma indicação do caminho que eu iria cumprir. Cada anseio ou fantasia, um registro maquiavélico para o próximo movimento. Fui tecendo a rede com os fios da tua fragilidade. Em lugar de trazer luz à tua busca aflita, mostrei o falso brilho de mim. Em vez de dissipar as névoas na tua viagem mar adentro, acenava como um porto seguro.

Mas não haveria como ser verdadeiro um amor instigado de forma tão sagaz. Também por isso ele era proibido. Mas o que tornava o cenário ainda pior, é que tal veto servia como palha. E fui sendo consumido pela fogueira de minha vaidade.

Por zombaria do destino, o fascínio me aguardava à beira do cadafalso. Minha cabeça, atada à corda do desvario. Nunca conheci alguém tão cativante, doce e afetuosa. Beijar-te, mesmo que fosse um leve toque, era um mergulho. Eras tudo e todo o tempo. Abraçar-te era como se enlaçasse o espaço exato da imensidão.

Lembrei-me do mito grego, onde Eros pedia a Psiquê para que não olhasse sua face. Somente assim permaneceriam juntos. Gritou, em seu desespero, quando ela secretamente o fez: “O amor não sobrevive sem confiança!”. Desta forma aconteceu. Nenhuma maneira de sustentá-lo. Como um Deus do amor às avessas, também não queria ser visto. E como ousar qualquer futuro, sendo o primeiro a não confiar em mim?

Mas, até para certo alento, finalmente me desvendaste. Sabias da condição insólita que era eu estar ali, professoral, postado à beira do divã. Porém, desconhecias minha presunção e pobreza de espírito para tamanha manipulação, embora inúmeras vozes tivessem te falado.

Não peço que me perdoes. Nem eu sou capaz de fazê-lo. Entrego as armas sórdidas. Rendo-me à tua alma nobre e crédula. Aqui te trago, pela última vez, a palavra indigente. Sejas feliz em breve. Ergue teus olhos tristes. Exubera-te, mesmo que a humildade venha a soprar teu nome.

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