Nossa Majestade

(Por Rubem Penz)

“Sou hoje um homem tão velho e tão sem razão,
que tenho imensa vergonha de falar na primeira pessoa.”

maria volta ao bar 1

Agora estamos assim: cheios de dedos, pruridos, dodóis. Estamos com medo de tudo e de todos. Até mesmo da nossa própria (e longa) sombra, pois nos fizeram crer que, com a idade, vem a sabedoria. Com a idade, vem a justiça. Com a idade, a verdade vem e se instala. Merda nenhuma!

Agora estamos assim: quando surge um dilema, um problema, a complexidade de um teorema, olham todos para nós. Esperam que brote de nossa experiência o bálsamo translúcido da concórdia. Desejam de nós a solução mansa para cristais em choque. Merda nenhuma!

Agora estamos assim: em palpos de aranha. Sem desculpa, sem saída, sem graça. Como alcançar a liberdade histriônica do palhaço quando nos vestem, sem consultar, o manto sagrado dos magos? Como dizer que desejamos mais confundir do que explicar sem parecer ignomínia? À merda!

Agora estamos assim: eleitos conselheiros, monges, gurus. E quando demora para sair determinada resposta, não é dúvida atroz – é serena reflexão. E quando nos custa fisicamente reagir, não é mera falha dos reflexos – é prudência pura. E quando nos é impossível tomar partido, não é insegurança – é equidistância aos polos tão ridiculamente radicais. Merda, merda, merda!

Pois é, agora estamos assim: uns velhos.

E, porque velhos, despidos da infante inocência, roupa a qual, mesmo que ainda nos sirva como luva, não nos permitem usar. E já transcendemos o indivíduo para sermos considerados instituição. É triste, colega: se erramos, falha uma geração inteira. Carregamos nas costas o peso da tradição. Migramos de vela para leme. Estamos abaixo da linha d’água e nunca mais o vento da novidade moverá nossos cabelos. Por isso nos querem de cabelos curtos: para não termos saudade do vento. Todos merdas.

Agora já não mais estou, é estamos. E quem disse? Agora já não sou é somos. E quem garante? Agora já não tenho, é temos. Mentira! É chegada a hora da partilha. Fim da propriedade. Para que desejar se ninguém leva essa merda, mesmo? Do tudo ao nada. Mas com honras de Soberano. Grande merda.
Vá rindo. Aproveita a juventude e sua vistosa primeira pessoa. Quando chegar a hora do plural majestático, cetro e coroa que dispensaria com prazer, você lembrará de mim, seu merda!

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