Dose Dupla

(Por Tiago Pedroso)

“Existe o homem e existe a vida.

Acontece que a vida é muito mais forte que o homem e faz dele o que bem quer.”

(Antônio Maria)

foto 3

Encontraram-se, por acaso, em um desses bares Dela. A Vida, dura feito costuma ser, e o homem, desmilinguido como nenhum homem deve mostrar-se diante desta.

Constrangido, não a encarava. Ela, cheia de si, pediu outra dose: “Dupla!”.

Já tiveram outras vezes essa conversa. Chegam sempre às mesmas conclusões: que não foi essa a que ele pediu a deus… Que ela passa muito rápido… Que cada um deve cuidar da sua…

Sentados assim, o homem e a Vida, na mesa do canto, num desses bares Dela, não levantam suspeitas – estão ali medindo forças. homem fraco esse, merece a letra minúscula no início da frase.

O que ela queria, mesmo, é que ele a agarrasse nos ombros, lhe estreitasse junto ao peito, olhasse em seus olhos e a beijasse na boca. Com fome e com força. Uma força desumana que, sendo apenas um homem, jamais teria.

Ele, semblante congelado, os braços cruzados sobre a mesa. Para espanto dos que observam a vida alheia nos bares, é passivamente esbofeteado no rosto. Resignado. Em silêncio. Até que lhe quebre o orgulho e a cara.

Agora remendado, é ele quem faz o pedido: “garçom, outra. Dupla!”.

Quem viu a cena garante que esse largou aquela vidinha. Não mais foi visto nesses bares, com mesas de canto, onde há cronistas observando as surras que Ela aplica.

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