Mais um dia de Tereza

Por Zulmara Fortes)

“Na vida conjugal, o homem precisa dizer besteiras constantemente.

Senão não é marido. É uma visita.” (Antônio Maria)

4927d763b7872d6c38012d48af35aa27

Tereza acorda o marido pontualmente às seis e vinte. Ao sair do banho, ele encontra, sobre a poltrona, a roupa passada e escolhida pela mulher. O aroma do café na mesa o convida a descer. Queixa-se de uma gastura que o acompanha há dias. Tereza pergunta se quer que marque uma consulta. Ele não acha necessário. Um antiácido basta. Anda cansado. Tereza propõe uns dias de férias. Faz tempo que não saem todos juntos. Quem sabe Fortaleza? Imagina! Esteve lá ano passado para um congresso e detestou. Cidade suja. Trânsito horrível. Tereza pede que ele sugira outro lugar. Mas não pode se afastar da empresa agora. Ela retira a mesa calada, enquanto ele volta ao andar de cima. Já de saída, casaco e pasta na mão, chega perto dela, beija-lhe, acaricia-lhe os glúteos e promete tentar chegar menos tarde esta noite. A mulher sorri com os olhos.

Lá vai Tereza.

Ela liga o rádio da cozinha. Aumenta o volume; está tocando uma de suas músicas preferidas. Sobe as escadas cantarolando e acorda cada um dos filhos com afagos e beijos. Já é hora, meus amores. Está um lindo dia de sol, diz a mulher abrindo as janelas. Enquanto as crianças disputam quem vai usar o banheiro antes, Tereza prepara as merendas com carinho. Adora mimar a família. Às sete e meia da manhã, a mesa da copa é uma algazarra só. A mãe apressa os filhos para que não percam a hora. Sua manhã passa rápida e tranqüila, entre panelas, vassouras e cantorias. Ainda conta com a preciosa ajuda de sua garotinha, sempre querendo participar de tudo.

Lá vai Tereza.

Perto da meia hora, os meninos chegam da escola famintos e cheios de histórias para contar. O mais velho está se interessando por uma colega e o outro se mete a conselheiro sentimental. Daí começa um bate-boca. A escola tem uma professora de Educação Física nova que está apostando no Atletismo. O menor tirou primeiro lugar na corrida. Está todo garboso. A menina bebe cada palavra, enquanto eles roubam as batatas fritas do prato dela. A hora da refeição vira uma choradeira e a mãe tem que intervir.

Lá vai Tereza.

À tarde leva a garotinha para a escola e os meninos para atividades extraclasse. Depois vai às compras, encontra amigas, dá uma passadinha na casa da mãe, leva flores, volta para casa, percebe que esqueceu o remédio do marido, sai de novo, compra antiácido e aproveita a promoção de um esmalte novo. De volta à casa, prepara uma salada de frutas, marca dentista, experimenta o esmalte, mas não consegue fazer a manicure porque está na hora de buscar a filha na escola. Final da tarde a casa vai-se acalmando. Tereza ajuda a filha no banho, depois recorta figuras de revistas para um trabalho escolar. Propõe um mutirão e cada um faz sua parte para deixar a casa em ordem antes de o papai chegar. Anoitece. As crianças estão cansadas e com fome. A mãe arruma a mesa para os pequenos, mas prefere esperar para jantar com o marido.

Lá vai Tereza.

O homem chega reclamando do calor, tira o casaco e os sapatos na sala mesmo. A mulher oferece chinelos. Afrouxando a gravata, joga a pasta em cima do sofá, liga a televisão e beija Tereza, com os olhos grudados no telejornal. A mulher serve o jantar e abre uma garrafa de vinho. Ele elogia e ela diz que escolheu no mercado hoje – pelo preço, já que não entende do assunto. Ele reclama que por causa de um acidente na Perimetral atrasou-se uma hora pela manhã. Pergunta pelas crianças e ela responde que a pequena já dormiu e os meninos estão no quarto. Ela pensa falar de como foi seu dia e dos filhos, do encontro que teve, por acaso, com uma colega de faculdade, da saúde da mãe, da otite do cachorro, mas lembra-se do conselho do pai: “não ocupe seu marido com assuntos domésticos se quer mantê-lo longos anos com você”. E cala-se. Um dos meninos desce e cumprimenta o pai com alegria e começa a tagarelar. Conta, feliz, as novidades da escola. O pai pergunta como vão as notas, se tem se comportado bem e se já fez seus deveres. O garoto tenta falar de futebol, mostra seu álbum, convida o pai para brincar, mas a conversa segue neste tom formal até que o pai atenta para um documentário que a TV a cabo está mostrando. O menino se aborrece e a mãe faz sinal de silêncio com o dedo indicador na boca.

Lá vai Tereza.

Ela sobe e leva o filho pela mão. No quarto, diz aos dois meninos que desliguem a luz e tratem de dormir. Dá uma espiada na menina e ajeita-lhe o travesseiro. Enquanto o marido se distrai com a televisão, ela lixa as unhas. Depois vai para o banho pensando em tudo o que precisa fazer amanhã, desde as refeições até levar o cachorro no veterinário. Em seguida retira a colcha da cama e acomoda-se sob o lençol perfumado. Percebe quando o marido desliga a TV da sala e sobe. Ele vai tirando a roupa e deixando pelo chão. Dirige-se ao banheiro. Na volta, observa que o aparelho de ar condicionado é novo. Questionada, Tereza responde que foi trocado, o outro estava com defeito. Demorou a perceber, parece que nem mora aqui, ela diz em tom de brincadeira. Ele se deita, dá uma bolinada na mulher e diz que ainda bem que não casou com uma dondoca incapaz de tomar decisões na sua ausência. Fazem o bom e rotineiro sexo de sempre. Antes de adormecerem, Tereza diz que o pai deve conversar com o filho mais velho. Ele está se interessando por uma menina, talvez precise de orientação – dicas de quem já foi especialista no assunto, provoca ela. Ele resmunga que sim, mas ela acha que ele nem escutou.

Menos um dia de Tereza. 4927d763b7872d6c38012d48af35aa27

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s