O sofá – Pergunta pro Maria

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Morador do bairro Petrópolis, em Porto Alegre, T.P. começou a semana com ressaca moral e resolveu tirar uma dúvida com Maria.  Comprei um apartamento novo e para comemorar comprei um sofá novo. Na primeira noite, dormi no sofá com a melhor amiga da minha mulher. O que eu devo fazer?

    Em relação ao sofá, mantenha-o. Certamente, ele traz melhores lembranças que sua mulher.

Chatonildo

(Por Tiago Pedroso)

Nunca me poderão acusar como falador da vida alheia,

porque não sei fazer outra coisa que não falar de mim.”

(Antônio Maria)

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Ele aparece justamente quando mais desejamos paz. Nunca é convidado, chega de intrometido. Um pulôver sobre os ombros, combinando com as meias. Fala alto ao telefone, talvez nem exista um ouvinte na outra ponta da linha. Pede desculpas antes e depois de qualquer frase e senta-se no lugar vago de quem foi ao banheiro. Tem sempre um ditado popular, normalmente errado ou incompleto, engatilhado: “desculpa, mas, foi ao ar…”. Seu nome é Muito. Sobrenome, Chato.

Não bastasse a inconveniência existencial dessa espécie, os muito chatos discorrem, invariavelmente, sobre um único e miserável assunto: Eles mesmos.

Diferentemente dos egochatos, do LFV e do homem autobiográfico, de Antônio Maria, que procuram sempre contar suas vantagens, os chatonildos (vamos chamá-los assim) nos despejam, a todo o momento, lamúrias, mazelas, falta de sorte (no jogo e no amor), falta de dinheiro, de amigos, de sono… De apetite, não. Pois comem os chatonildos. E pedem desculpas. E nos cutucam no ombro dizendo “tá ligado”. E limpam a boca e os óculos com a manga do pulôver. “O que não mata…, desculpa”.

Os chatonildos são fofoqueiros frustrados. Não têm mais credibilidade para falarem da vida dos outros, por isso, falam da própria. O prazer de um chatonildo é encontrar um desavisado que lhe ouça com atenção. Assim, pode derramar sua autocomiseração sem trégua. E, se o desavisado ouvinte demonstrar qualquer sinal de interesse, aí sim ele vai à forra. Canta aquela músiquinha do carnaval na Bahia. Inicia uma piada que irá esquecer-se do final, lembra a piada e tenta explicá-la. Da um tapa nas costas do sujeito a fim de arrancar uma risada. “Desculpa, mas, quem ri por último…”.

Vê-se facilmente o desmancha bolinho, ao aproximar-se a figura, na roda de amigos. Sozinho, finge conversar com alguém no celular, que está de cabeça pra baixo. Simula ver alguma mensagem. Manda uma para ele mesmo. Sorri e responde a si próprio com cinismo.

Como são inconvenientes os que, no desjejum, não tomam uma dose de sifragol com leite morno. Ou um chazinho de setóca, no início da tarde. Agora, insuportáveis, mesmo, são os que pediram para serem chatos e entraram na fila redonda – os chatonildos-de-galochas. Aqueles que falam de si e da vida alheia, com a mesma falta de bom senso. “Desculpa, mas, quem com ferro fere…”.

A solteirona – Pergunta pro Maria

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Oscar Wilde fala que uma mulher capaz de revelar a própria idade é capaz de qualquer coisa. A leitora V.M. nos disse a idade e nos faz a seguinte pergunta: “Tenho 30 anos e ainda estou solteira. (…) Tenho medo de ficar solteirona, mas minhas amigas solteiras são unânimes em dizer que os homens de hoje não querem compromisso. Como faço para encontrar um bom marido?

             

             V.M, primeiro, é preciso se decidir: você quer um homem bom ou um marido? Não se pode ter as duas coisas.

Ato de contrição

(Por Rubem Penz)

“A gente conhece quando é Deus que manda as coisas

e quando é o diabo.”

(Antônio Maria)

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Não esqueça: garçom não existe apenas para servir bebidas, petiscos, pratos ou sobremesas. Nós servimos de válvula de escape para a raiva alheia, contraprova em casos de sedução, companhia aos solitários, estorvo aos apaixonados, separadores de brigas. Emissário das más notícias (a conta) e parceiro nas horas difíceis (essa, deixa que eu pago). Também, talvez principalmente, servimos de confessores aos que perderam o endereço da paróquia, mas ainda creem na remissão dos pecados.

E ele estava na minha frente. Não era a treliça que nos separava, mas o âmbar distorcido de uma garrafa de Johnny Red pela metade. E o homem chorava o pior dos choros: aquele sem soluços ou lágrimas. Choro engolido com raiva, com desprazer. Choro purgante. Queria confessar. Tinha vergonha. E bebia com a sofreguidão dos náufragos. E mastigava seu desconsolo como quem tritura amendoins. E triturava amendoins como quem rói um osso. É sempre assim, não basta comer a carne…

Por duas vezes aprumou-se, ajustou os ombros, coçou a garganta, engoliu, bateu na mesa, puxou o ar mais fundo… E desistiu. Era como se um anjo pousado no ombro direito soprasse, melodicamente: que isso, Adamastor? Olha a fome no Haiti. Olha a situação do Oriente Médio. Olha a aparência da tua vizinha do 104 depois da décima sétima plástica. Isso é sofrimento, Adamastor. Isso é dor. Você deveria estar com vergonha. Vergonha de ligar para algo tão pequeno. Fútil. Passageiro.

Então, os olhos dele se perdiam por instantes num horizonte idílico e calmo… Quem sabe o mar. Quem sabe um trigal dançando ao vento. E recolhia os ombros para frente. E subia o copo até a boca. E sorvia mais um gole. O líquido descia quente e um demônio parecia sussurrar, áspero, em sua orelha esquerda: você vai deixar assim, Adamastor? De graça? Esquecer o que foi dito, relevar o que foi feito, perdoar a traição? Isso não se faz nem para cão sarnento. Você é um homem ou um rato? – era quando Adamastor pegava amendoins como uma escavadeira e despejava o conteúdo na bocacaçamba.

Eu não fazia ideia de qual seria o lado vencedor. Fiquei apenas ali, parado, secando o copo sem tirar os olhos dele. Admirando dois lados do sujeito esgrimarem – ataque, defesa, contra-ataque. Um florete, a qualquer momento, alcançaria o coração. Gestava o pior dos choros: lamento de promessa contínua, de fim incerto. Adamastor era um homem bom. Um cliente ainda melhor. Mas nunca deu sorte com as mulheres. Agora estava postado diante de mim, seu confessor, ajustando os ombros pela terceira vez, coçando a garganta, tossindo amendoins e limpando a mão nas calças. Segurando o copo a meio caminho do gole, batendo na mesa com a outra mão. Pronto para falar. Para gritar. Para urrar!

Foi quando correu em seu rosto uma lágrima. Uma só. E eu o absolvi.

Aquilina

(Por Roberto Marques)

“Diz um escritor francês que nós, homens, devemos desposar

mulheres bonitas, porque só assim, um dia, nos veremos livres delas.”

(Antônio Maria)

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– O que é que você disse?

– Ela se achava um tanto aquilina. De águia, entende? A pessoa que tem nariz adunco.

– Cruzes! Ficou pior. De onde você tira estas coisas, Adalberto?

– Sabe nada mesmo, né Carlão? Nariguda! Pronto. Ela disse que isto incomodava. Sempre a maquiagem para disfarçar. Foto de perfil, então, jamais. Falei que não era tanto. Que ela tinha uma beleza diferente. Tipo a Barbra Streisand. Ela quase chorou. Falou que todo mundo achava isto e que não via beleza nenhuma nela.

– Mas então não tem problema. Você também é narigudo. Aliás, como é que vocês fazem para se beijar? Deve ser difícil.

– Não enche, Carlão! O fato é que isto até acabou ajudando na conquista. Ela se sentia acompanhada no infortúnio. Grudou feito chiclete. Um sufoco! Não sabia mais o que fazer. Menos mal que ela é querida, inteligente, divertida…

– E gostosa pra caramba. Muito espertinho, Adalberto!

– Mas você me conhece. Já passava da hora da fila andar.

– E o que foi que você fez, genialidade?

– O fato de meu pai ser cirurgião plástico me deu uma luz. Se ela aceitasse dar um jeitinho no nariz, melhoraria a autoestima. De quebra, talvez começasse a perder aquela identificação comigo. Ela aceitou! Ficou muito feliz. Altiva, cheia de si.

– Então, o plano começou a dar certo. Ela percebeu o quanto você é feio e chato, que merecia algo melhor e vocês terminaram.

– Não, sua peste! Eu já nem queria. Inclusive, quase acabei entrando nesta de cirurgia.

– Não acredito! Você, assim, amarradão? Isto é inédito!

– Pois é. Acho que o tiro saiu pela culatra. Mas nem tudo mudou. Certo dia ela olhou para mim com aquele jeitinho meigo, queixosinha… Puxou o cabelo timidamente para trás e perguntou se eu não achava que ela tinha orelha de abano. De novo. Fazer o quê? Procedimento bem simples.

– Daí, sim, tudo acabou. Até porque você também é orelhudo.

– Deixa de ser chato, Carlão! Sempre me esculachando. Inveja, né? Só que não. O problema é que, depois, vieram mais: lábios, seios. Meu pai já estava aborrecido. A lipo foi a última. Esta, acabei até bancando sem que ela soubesse.

– E você babando. Também pudera. Imagino que ficou parecendo uma miss.

– Verdade. Não imaginava que o resultado pudesse ser tão bom. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.

– Então, explica aí. Por que esta cara de bunda? Tomando todas deste jeito?

– É que, depois de tudo, ela acabou me deixando. Percebe que fui enganado? Aquele comportamento angelical escondia um plano sinistro.

– Entendo… Bem como você falou. Coisa de águia.

– Foi rapinagem, Carlão! Rapinagem!

– O que é que você disse?