Voltando para casa

(Por Felipe Basso)

“Não havia nada a fazer.

Eu estava diante de uma mal amada”

(Antônio Maria)

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Eu a vi, ontem à tarde, em um café. Ela estava com o namorado, que não desgrudava os olhos dela, e que, ao mesmo tempo, acariciava seus cabelos e passava os dedos suavemente em seu rosto. Ela tentava fingir alegria com tamanha atenção, mas não escondia que se sentia incomodada. Não era nova. Nem era velha. Não era feia. Nem era bonita.

Voltei para a conversa da mesa e os esqueci. Era tarde de sábado e eu estava livre de compromissos. Do café, partimos para o chope, o que fez a tarde passar mais rápida e também mais suave. No caminho de casa, já escurecendo, entrei em uma livraria e quem eu encontro na seção de literatura estrangeira? Sim, o casal do café.

Ela falava sobre a P-A-I-X-Ã-O que sentia pela obra de Kafka, e também sobre a raiva que tinha da sua amiga Ju, por ser tão metida e insistir em dizer que também amava o autor tcheco. “A Ju é tri burra, e não saca o que o Kakfa escreve! Ela ainda acha que A Metamorfose é só sobre um cara que se transforma numa barata, acredita? Tipo, Kafka é bem mais foda.”

O assunto continuou entre as prateleiras e parou nos autores que se vendiam para a indústria cultural por um punhado (um bom punhado) de verdinhas. Falou de Paulo Coelho, de Stephenie Meyer, de Martha Medeiros, de John Green e se espantava como eles podiam dormir à noite, depois de escrever tanta coisa ruim só pra ganhar dinheiro. “Se eu fosse escritora, jamais faria isso!”.

Passou então para os de sua preferência. Dizia que Altair Martins e Rufatto são escritores que nunca se venderam. Perguntou para o namorado (sem dar chance para a resposta) se ele tinha lido o discurso do Ruffato na abertura da Feira de Frankfurt, no ano passado. “Se não leu, lê hoje. Ele denuncia todas as mazelas brasileiras naquele discurso, sem papas na língua, sem enrolação!’. Mas sua emoção parecia se partir quando lembrava que somos um país de analfabetos e que devido a uma mídia direitista e manipuladora ninguém havia prestado atenção na fala dele. Lembro que ela terminou dizendo: “Eu não me lembro todos os tópicos que ele abordou, mas é um discurso muito foda. Bah, tu tem que ler”.

Falou da sua carreira no jornalismo, que a escolhera porque sentia a necessidade de ser crítica, porém, sem radicalismos, que só atrapalham a analise imparcial dos fatos.

E durante todo esse tempo, o namorado sem dar um pio, um único pio. Eu já me compadecia da dor do pobre coitado. Sempre haverá um homem disposto a encarar qualquer coisa por uma noite de sexo.

Meu desejo era ajudar os pombinhos. Mas qualquer manifestação minha seria em vão naquele momento. Dizer o que? Para não desperdiçarem aquelas preciosas horas com tanto discurso besta? Para não gastarem tempo com assuntos dos quais ninguém daria a menor importância em dois ou três anos? Dizer para não fazerem o que eu havia feito? Não, eu já estava voltando para casa. Eles, em compensação, estavam apenas saindo.

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