Nelsinho

(Por Luciana Farias)

“O pior encontro casual da noite ainda

é o do homem autobiográfico” (Antônio Maria)

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A história desse sujeito (chamarei de Nelsinho) corre à boca pequena naquelas casas  que cheiram a suor e a uísque barato. Fiquei sabendo, simplesmente. Replico aqui o ocorrido apenas porque muitos foram os pedidos. Meu intuito, caros leitores, jamais é o de julgar. O fardo do dever de informar, às vezes, não é o mais palatável.

Consta que Nelsinho era dos que usava os cabelos para trás com gumex, bigodinho bem aparado e correntão de ouro aparecendo sobre os pelos do peito, deixados à mostra pela camisa semiaberta. As mulheres caiam de amores pelo tipo e ele se orgulhava da fama de garanhão. Gostava de contar vantagem. No bairro, de virgens a casadas, todas sucumbiam ao charme do Nelsinho.

Ah, que inveja desse camarada! Não sofria por amor, não chorava sobre fotos desbotadas e não saía carregado dos bares depois de uma noite de dor de corno.

Mas, volto à história que me contaram e que compartilho por seu caráter pedagógico.

Em uma de suas idas à farmácia (finais de semana de excessos carnais), conheceu Verônica, a nova atendente. De pronto, apresentou-se à moça. Contou-lhe parte da boa vida que levava graças à herança polpuda de seu pai e convidou-a a tomar um chá da tarde. Fez questão de dizer que não era desses que levavam as senhoritas para destinos noturnos de duvidoso gosto.

No dia marcado, Nelsinho apareceu com seu cabelo de costume e água de colônia francesa. Avistou Verônica na calçada e, como um mestre-sala, acompanhou-a ao carro, abrindo-lhe a porta.  No caminho, devaneou que talvez essa fosse para casar. Quer pernas, que cinturinha!

Agora, amigos, vem a parte da história que talvez não tenha sido bem assim, mas que deixou  Nelsinho verdadeiramente nervoso.

No semáforo, olhou para Verônica de perfil. Ela tinha gogó. Sim, pomo de Adão. Além disso, suas mãos, vendo melhor, eram enormes, com dedos grosseiros e peludos!

Que situação a do Nelsinho.

Na esquina, viu Clóvis e Vanderley, seus companheiros de bar, apontando-lhe e rindo.

A verdade é que os amigos sabiam que Verônica não era uma senhorita. Menos Nelsinho.

Ele só queria colecionar histórias de garanhão. A moça eleita era o de menos.

O que fazer um homem quando a vida desafia sua fama e sua glória? Manter-se firme e seguir adiante ou aceitar a derrota e baixar os olhos?

Desconheço o desfecho do caso, para tristeza geral. Ouvi dizer, apenas, que Nelsinho segue frequentando as noites boêmias, com peito estufado. E um brilho nos olhos.

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