Senoide

(Por Mariana Marimon)

De mim, a quem desconheço totalmente, falo de cadeira.”

(Antônio Maria)

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Nada me incomoda mais do que ouvir alguém dizendo que me conhece. Talvez meias molhadas em um dia de chuva, ou o rímel à prova d’água que não sai nunca e me faz um panda na manhã seguinte. Claro que isso rende excelentes desculpas para comprar um sapato no meio do expediente ou morrer na farmácia escolhendo todos os demaquilantes disponíveis no mercado, na esperança de que um deles, afinal, há de resolver o problema. Mas voltando…

Fui a uma festa estes tempos – aqueles longínquos em que eu ainda ia em festas. Sexta-feira, me arrumei de blusa nova, salto bem alto e casaco de pele; coque com direito a mousse volumizador e laquê, maquiagem Dior, batom Chanel e tudo mais. “Nossa, nem te reconheci”, foi assim que começou. Por que me reconheceria, foi o que eu pensei, lembrando que aquela menina tinha me encontrado talvez, se tanto, duas vezes anteriormente. “Mas tu não era hippie?”, prosseguiu, com uma que me encontrou uma única vez, numsábado à tarde no parque, em que eu obviamente mandei ver no look Woodstock-saia-longa-e-colar-sem-brincos.

Então parei para me dar conta que levamos a sério demais a assertiva de que precisamos de meros sete segundos para formar uma opinião sobre uma pessoa, baseada em primeiras impressões. E são elas as que elas ficam, segundo dizem por ai. Usamos a nosso favor essa milenar técnica para identificar as pessoas ao nosso redor com quem gostaríamos de, bem, nos identificar. E não cansamos nunca de nos surpreender ao sermos surpreendidos.

Mas basta me conhecer (de verdade) para saber que eu nunca sou a mesma. Basta se conhecer, na verdade, para saber que quem somos muda a cada dia quando acordamos. Umas vezes com vontade de usar a melhor roupa do armário e conversar até com o mendigo bêbado por quem cruzamos a caminho do supermercado. Outras saindo com aquela pressa de casa, cabelo preso e semi-molhado, sem tempo de sequer dar bom-dia ao zelador do prédio. E ainda algumas vezes com ânimos de, quicá, apenas existir, ilhado, ignorando o poeta inglês.

Me chamaram de senoide uma vez. Não necessariamente de uma maneira amistosa, mas eu encarei no elogio, adorei. Ser surpreendente e a parte mais legal. Mudar sempre e o tempo inteiro é a maneira mais fácilde mostrar ao mundo, em até menos do que aqueles poucos segundos, que nem eu sei bem ao certo quem sou. E não se conhecer é a forma mais genuína de se saber.

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