Aquilina

(Por Roberto Marques)

“Diz um escritor francês que nós, homens, devemos desposar

mulheres bonitas, porque só assim, um dia, nos veremos livres delas.”

(Antônio Maria)

foto 2 (1)

 

– O que é que você disse?

– Ela se achava um tanto aquilina. De águia, entende? A pessoa que tem nariz adunco.

– Cruzes! Ficou pior. De onde você tira estas coisas, Adalberto?

– Sabe nada mesmo, né Carlão? Nariguda! Pronto. Ela disse que isto incomodava. Sempre a maquiagem para disfarçar. Foto de perfil, então, jamais. Falei que não era tanto. Que ela tinha uma beleza diferente. Tipo a Barbra Streisand. Ela quase chorou. Falou que todo mundo achava isto e que não via beleza nenhuma nela.

– Mas então não tem problema. Você também é narigudo. Aliás, como é que vocês fazem para se beijar? Deve ser difícil.

– Não enche, Carlão! O fato é que isto até acabou ajudando na conquista. Ela se sentia acompanhada no infortúnio. Grudou feito chiclete. Um sufoco! Não sabia mais o que fazer. Menos mal que ela é querida, inteligente, divertida…

– E gostosa pra caramba. Muito espertinho, Adalberto!

– Mas você me conhece. Já passava da hora da fila andar.

– E o que foi que você fez, genialidade?

– O fato de meu pai ser cirurgião plástico me deu uma luz. Se ela aceitasse dar um jeitinho no nariz, melhoraria a autoestima. De quebra, talvez começasse a perder aquela identificação comigo. Ela aceitou! Ficou muito feliz. Altiva, cheia de si.

– Então, o plano começou a dar certo. Ela percebeu o quanto você é feio e chato, que merecia algo melhor e vocês terminaram.

– Não, sua peste! Eu já nem queria. Inclusive, quase acabei entrando nesta de cirurgia.

– Não acredito! Você, assim, amarradão? Isto é inédito!

– Pois é. Acho que o tiro saiu pela culatra. Mas nem tudo mudou. Certo dia ela olhou para mim com aquele jeitinho meigo, queixosinha… Puxou o cabelo timidamente para trás e perguntou se eu não achava que ela tinha orelha de abano. De novo. Fazer o quê? Procedimento bem simples.

– Daí, sim, tudo acabou. Até porque você também é orelhudo.

– Deixa de ser chato, Carlão! Sempre me esculachando. Inveja, né? Só que não. O problema é que, depois, vieram mais: lábios, seios. Meu pai já estava aborrecido. A lipo foi a última. Esta, acabei até bancando sem que ela soubesse.

– E você babando. Também pudera. Imagino que ficou parecendo uma miss.

– Verdade. Não imaginava que o resultado pudesse ser tão bom. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.

– Então, explica aí. Por que esta cara de bunda? Tomando todas deste jeito?

– É que, depois de tudo, ela acabou me deixando. Percebe que fui enganado? Aquele comportamento angelical escondia um plano sinistro.

– Entendo… Bem como você falou. Coisa de águia.

– Foi rapinagem, Carlão! Rapinagem!

– O que é que você disse?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s