Chatonildo

(Por Tiago Pedroso)

Nunca me poderão acusar como falador da vida alheia,

porque não sei fazer outra coisa que não falar de mim.”

(Antônio Maria)

maria volta ao bar 1

Ele aparece justamente quando mais desejamos paz. Nunca é convidado, chega de intrometido. Um pulôver sobre os ombros, combinando com as meias. Fala alto ao telefone, talvez nem exista um ouvinte na outra ponta da linha. Pede desculpas antes e depois de qualquer frase e senta-se no lugar vago de quem foi ao banheiro. Tem sempre um ditado popular, normalmente errado ou incompleto, engatilhado: “desculpa, mas, foi ao ar…”. Seu nome é Muito. Sobrenome, Chato.

Não bastasse a inconveniência existencial dessa espécie, os muito chatos discorrem, invariavelmente, sobre um único e miserável assunto: Eles mesmos.

Diferentemente dos egochatos, do LFV e do homem autobiográfico, de Antônio Maria, que procuram sempre contar suas vantagens, os chatonildos (vamos chamá-los assim) nos despejam, a todo o momento, lamúrias, mazelas, falta de sorte (no jogo e no amor), falta de dinheiro, de amigos, de sono… De apetite, não. Pois comem os chatonildos. E pedem desculpas. E nos cutucam no ombro dizendo “tá ligado”. E limpam a boca e os óculos com a manga do pulôver. “O que não mata…, desculpa”.

Os chatonildos são fofoqueiros frustrados. Não têm mais credibilidade para falarem da vida dos outros, por isso, falam da própria. O prazer de um chatonildo é encontrar um desavisado que lhe ouça com atenção. Assim, pode derramar sua autocomiseração sem trégua. E, se o desavisado ouvinte demonstrar qualquer sinal de interesse, aí sim ele vai à forra. Canta aquela músiquinha do carnaval na Bahia. Inicia uma piada que irá esquecer-se do final, lembra a piada e tenta explicá-la. Da um tapa nas costas do sujeito a fim de arrancar uma risada. “Desculpa, mas, quem ri por último…”.

Vê-se facilmente o desmancha bolinho, ao aproximar-se a figura, na roda de amigos. Sozinho, finge conversar com alguém no celular, que está de cabeça pra baixo. Simula ver alguma mensagem. Manda uma para ele mesmo. Sorri e responde a si próprio com cinismo.

Como são inconvenientes os que, no desjejum, não tomam uma dose de sifragol com leite morno. Ou um chazinho de setóca, no início da tarde. Agora, insuportáveis, mesmo, são os que pediram para serem chatos e entraram na fila redonda – os chatonildos-de-galochas. Aqueles que falam de si e da vida alheia, com a mesma falta de bom senso. “Desculpa, mas, quem com ferro fere…”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s