Foi melhor assim

“Quando a vida separa homem de mulher,

sabe o que está fazendo”

(Antônio Maria)

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Capítulo 1: Bina

O que a Sabrina me disse é que tudo aconteceu muito rápido e como ela tinha recentemente terminado um relacionamento muito complicado, ainda não era hora. Ela gostava de mim e dos programas que fazíamos juntos, mas precisava de um tempo para si, a fim de colocar as coisas em ordem.

Capítulo 2: Priscila

Para a Priscila, minha família era muito grande e se reuniam demais e aquilo não dava. Tudo bem que eu precisasse passar Natal com pais e tios e primos, mas porque ela precisava estar junto? Todos aqueles abraços e troca de presentes representavam tudo que ela não queria mais em sua vida.

Capítulo 3: Angélica

A Angélica queria anel, bolo e papel passado. Festa para 300 pessoas, com direito a foto na coluna social. Eu propus uma longa viagem pela Europa. A gente não poderia ter os dois. Ficamos sem nenhum.

Capítulo 4: Fabi

A Fabiana odiava meus amigos. O Luquinha porque bebia demais, o Nego Juarez porque era um galinha, o Torrão só falava baixaria, o Tadeu porque tinha banda de heavy metal e o Camelo porque se aproveitava de mim para beber nas minhas costas. Ela gostava do Alemão, mas esse se mudou. Decidi então me tornar amigo dos amigos dela. Também não deu. Eu estava me metendo demais na sua vida e não é assim que as coisas funcionam.

Capítulo 5: Débora

Depois dos primeiros meses, só sobrou o sexo. Eu falei “ótimo!”. Ela não entendeu a piada e me deixou na mão.

Capitulo 6: Joana

A Joana era parceira para qualquer coisa. Aceitava de show do punk rock a fandango no interior do Estado. Praia, serra e campo, não tinha tempo ruim. Todos apostaram que dessa vez terminaria em casamento. Todos perderam.

Epílogo

No fim das contas, não foi nada de mais. Apenas a vida, que achou melhor assim.

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Bergamotas para Aninha

(Por Dora Almeida)                    

                   “Angústia é o resultado da perda de intimidade

de um homem consigo mesmo.”

(Antônio Maria)

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 Passo meus dias sempre ligado. Mas não em mim, no que me acontece ou deixa de me acontecer, nas decisões que devo tomar. Fico ligado é no celular, sempre checando a caixa de e-mails, as mensagens. Não consigo desgrudar os olhos do Facebook, curtindo as postagens, respondendo a questões que não tenho o menor interesse. Fico curtindo textos enfadonhos, palavras soltas, vazias e, pasmem, até compartilhando coisas que nem leio, só vejo a foto e o título. Se for autoajuda, se estiver reclamando do governo, do preço do tomate, da novela da Globo, pronto, compartilho. Até novena para Nossa Senhora dos Jogadores de Futebol eu compartilho. Notícias do dia, protestos, gastos com a Copa, crimes, assaltos, de tudo isso eu sei. De tudo eu tomo conhecimento.

Só não tomo conhecimento de mim, do que eu preciso, do que eu sou ou do que eu devo ser. Sei que tenho de fazer as leituras do mestrado, que estou atrasado com as entregas para o meu orientador. Mas como dizer para mim que sou um relapso? Não consigo. Como me fazer entender que preciso me desculpar com a Aninha? Como explicar a minha irmã porque não fui ao aniversário dos gêmeos? Sou um estranho de mim mesmo. Como falar de intimidades a um estranho?

Pela manhã acordo, olho no espelho embaciado do banheiro e não me reconheço. Não sei mais quem é este homem de cabelos compridos que me olha com cara de espanto. E decido.  Hoje me reconcilio comigo mesmo.

Abro as janelas para deixar entrar o sol e o ar frio deste começo de inverno. Vejo um menino que passa vendendo bergamotas. Lembro que Aninha adora comer bergamotas, principalmente num dia de sol e frio como hoje. Faço um café bem forte. O cheiro do café me ajuda a decidir. Chega de angústia, de dúvidas, de indecisões. Como dizia minha avó, ”faça agora e arrependa-se depois, se for o caso”. Recomeço as leituras interrompidas, faço anotações, a manhã passa rápido.

O telefone toca. É Aninha. Combinamos nos encontrar mais tarde, “preciso te pedir desculpas, meu amor”.  Ligo para minha irmã e digo que passarei lá no sábado para ver as crianças. Então me dou conta que não abri o Facebook ainda. Sorrio e deixo para mais tarde. Preciso cuidar dos meus assuntos, mandar o e-mail para o orientador, passar na livraria e comprar o “Cem anos de solidão “, em espanhol, que Aninha me pediu outro dia, cortar o cabelo. Troco de roupa e, ao me ver no espelho, percebo que estou com outra cara. Cara de quem retomou a vida. Quase feliz.

Saio para a rua. Cumprimento o porteiro, que me olha com ar de espanto: ” Dia lindo, não? Adoro estes dias ensolarados de inverno. Acho que vou comprar umas bergamotas”.

 

o tempo, sempre o tempo!

(Por Zulmara Fortes)

“A velhice chega de repente, às vezes como um pássaro

que pousa fatigado na varanda, ao entardecer.”

(Antônio Maria)

 

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          A primeira vez que envelheci foi aos 30 anos. Um belo dia me olhei no espelho e vi fios de cabelos brancos. Eles já estavam ali há algum tempo, mas eu dava um jeito de esconder. Ora jogava o cabelo para o lado, ora usava presilhas. Mas, naquele dia eles se mostraram para mim de uma forma tão escancarada que não pude mais ignorá-los. Tive que resolver o problema: passei a tingi-los. Foi um marco. A partir daquele momento comecei a observar que taxistas e comerciantes já me tratavam por senhora. Quando acostumei com a nova condição, percebi que não estava velha, estava adulta.

A segunda vez que envelheci foi aos 50 anos. Um belo dia me olhei no espelho e vi que minhas linhas de expressão estavam muito marcadas. Havia bolsas sob os olhos e outros (nem tão) pequenos defeitos. Eles estavam ali há tempos, mas eu não queria ver. Investia em cremes cada vez mais caros, protetores solares cada vez mais potentes e exercícios faciais ensinados em programas de televisão. Até que assumi: não dava mais para sair sem disfarce, suave que fosse. Precisava usar maquiagem. Quando me recuperei do susto, percebi que eu era mais do que adulta, era madura.

O tempo e a auto-estima – ou o espírito de sobrevivência – se sobrepõem a todo o resto. Em algumas semanas já estava acostumada com minha nova figura e gostando dela no espelho. Depois que a ficha cai fica mais fácil, vive-se melhor.

Muitos envelhecimentos ainda estão por vir e sei que virão, um a um, lentamente. Entretanto, para mim a descoberta será sempre num clic. Um momento único – meu com minha imagem.

Enquanto meu choque de realidade for apenas com meu reflexo no espelho, a vida seguirá sem grandes transtornos. Mas, haverá momentos mais dolorosos: quando a denúncia vier das minhas falhas motoras, da memória confundida, da dependência de medicamentos; quando meu corpo, extenuado de tanto viver, se entregar ao seu próprio entardecer; quando, definitivamente envelhecida por dentro e por fora, eu não puder mais me remendar, nem me disfarçar.

Da última vez que envelhecer não haverá susto, apenas contentamento por ter chegado lá.

 

Tardes Emolduradas

(Por Vanessa Conz)

“É bom ter muitas lembranças, para a velhice.

À falta de melhor, fazem companhia.” (Antônio Maria)

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“Querida Alva,

Desde a última vez que lhe escrevi, cá estou na mesma situação – provavelmente a única daqui para diante. Aqui, neste continente, já há alguns dias amanhecemos primavera e isso contribui para o ânimo de escrever.

O jardim está tão colorido que não posso deixar de lembrar das nossas tardes na Redenção. Quantas foram, Alva, centenas? Como são boas para mim nossas memórias, amiga querida, agora que, sentada nesta cadeira, vejo as tardes emolduradas em minha frente. Nunca imaginei que o tempo um dia passaria tão moroso…Se soubesse, Alva, teria corrido mais quando resolvíamos varrer a cidade de cima abaixo, deixando nossos pés conhecerem as pedras de cada esquina. Éramos nós saudosas das ruas que não conhecíamos, seguidoras do Quintana, lembra? Se soubesse, eu teria fotografado todos os nossos domingos, pois ainda sinto meus braços preguiçosos daquelas tardes de frio e sol, quando deitávamos no parque.

Se soubesse, eu teria invadido as salas de cinema todas as noites e teria chorado, chorado e chorado, sem o ínfimo acanhamento. Se soubesse, eu teria aceitado todos os convites possíveis para os chás, festas e bailes, vestindo-me sempre deslumbrante. Mas o máximo que podemos exigir do tempo é que ele nos deixe espiar os dias passados, porque caminhando, ele só vai para frente, não é mesmo? Então agradeço a você por termos compartilhado memórias incríveis, ainda sabendo que posso moldá-las a meu bem entender. Na velhice não é costume darem-nos crédito, então fico à vontade para ajustar algumas lembranças. Recorda daquele dia de inverno na praia em que caímos na água gelada? Antes que você responda, eu sei que não tive coragem, mas hoje preciso acreditar que me atirei e, querida amiga, prometa que este será mais um de nossos segredos! Olhando para meus pés, agora tão fracos e magricelos, vejo o quanto eram fortes, embora distraídos. Seguiam tão rapidamente, que mal notavam o corpo cheio de amor que carregavam. Ainda bem que amamos até a borda, minha querida! Disso sim não teremos arrependimentos – amamos nossos parceiros, nossos filhos, nossos amigos até doerem e transbordarem de felicidade nossos corações, dos átrios aos ventrículos, até sobrevivermos a todos para estarmos aqui hoje lembrando-nos de tudo…

Amiga, se o destino fez com que vivêssemos mais do que todos os nossos familiares, o que inicialmente parecia um castigo, hoje sei que ele nos deu um privilégio. Afinal, olhar por esta janela não pode ser uma pena, deve ser algum tipo de redenção. E o que fizemos nós de errado nesta vida, a não ser seguirmos nossos sonhos?

Aguardo com ansiedade sua próxima carta. Grandes abraços de sua amiga centenária.

Alice”

Nora Ney

(Por Gerson Kauer)

“Sangue não lava coisa alguma. Só suja.”

(Antônio Maria)

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Saulo já havia tentado suicídio duas vezes. Tem até uma piada entre os amigos. Dizem que quando ele pensa nisso, nos seus momentos íntimos, se sente tão incompetente que tem vontade de se matar, mas se falhar de novo, coitado, morrerá de vergonha.

Saulo não gosta da esquerda. Acha inadmissível tratar outros os por “companheiro” ou “camarada”. Estas intimidades partidárias forçadas, a doutrina, as cartilhas…Saulo odeia as manias da esquerda. Crê, Saulo, de maneira peremptória, que todo socialista só o é, com os bens alheios.

Saulo acha que todo pobre é vagabundo e que todos os muito ricos são desonestos. Ele, sábio, seguiu o caminho do meio. Também não gosta de garçons excessivamente educados. Aqueles que a toda hora dizem “com sua licença”, e a cada contato, lhe desejam alguma coisa. “Bom apetite” , “bom proveito”, “tenha um excelente dia”, “ótima escolha senhor”. Odiáveis criaturas!

Sua tristeza profunda, como ele mesmo diz, “é uma coisa química, tem momentos que tudo perde o gosto.” Quero dizer, as poucas coisas que ainda caem no gosto de Saulo . Sua péssima pontaria o salvou nas duas vezes. Numa o tiro passou bem a direita do coração. Na outra, tentando corrigir, a bala passou a esquerda e acima. Agora Saulo está mais estável – toma uns remédios – mas ainda guarda a arma.

Ninguém entende o que a Cida viu no Saulo, moça alegre, cheia de vida. Ela estava entrando no bar e achou engraçado aquele cara brigando com o garçom que queria manter seu copo cheio. “Eu sei me servir! Sai daqui,” gritava. Era um ranzinza engraçado e ela puxou assunto. A vida às vezes une pessoas diversas, buscando uma miscigenação evolutiva.

Ficaram oito anos juntos, ele resmungando e ela achando engraçado.

Saulo anda bebendo muito, parou com os remédios e agora está no bar, tomando grandes goles de coragem para fazer o que deve ser feito. “Se ela não vai ser minha, que não seja de mais ninguém.” Pensa, enquanto esvazia o copo.

– Com sua licença, senhor…

Saulo dá dois tiros no garçom. Ninguém entendeu, nem os colegas de cela.

Uma das balas se alojou na parede do bar, depois de atravessar o peito de Nora Ney, numa reprodução da capa do disco “Ninguém me ama”.

Leandro, o garçom, se recupera bem do tiro no pé.

Maria e Vinicius

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Antonio Maria e Vinicius de Morais eram grandes amigos. No livro Diário de Antônio Maria, o cronista fala de uma carta recebida do poetinha e que transcrevemos aqui, no Dia do Amigo.

“Vinicius me escreveu, de Paris. Sabe que me magoou quando uma noite, de pileque, fez uma cena de ciumes e me chamou para brigar. Depois disso, não achei jeito nunca mais de ficar perto dele. Agora me escreve e fala demoradamente sobre o caso. Diz; “Você é homem guardador de coisas, mas, francamente, comigo não é preciso. A amizade que há entre nós, um negócio tão viril e sério, não pode, positivamente, se intimidar diante de coisa nenhuma. Que diabo, meu Maria! Pegue um papel e me escreva uma carta bem terna, dizendo que não há nada, e esqueça os imponderáveis da vida. Eu preciso da sua amizade e o resto é bobagem. Você me disse que a única coisa que poderia quebrar nossa amizade seria uma mulher. Eu estou certo de que nem isso.

Acho que esta carta me desmagoou inteiramente. Vinicius se renovou, de repente, em minha amizade. Que coisa boa!”