O problema

Mesa de bar é como coração de mãe: sempre tem lugar pra mais um. Por isso, a oficina literária Maria volta ao bar começa a semana com mais uma novidade: o Maria convida, na qual puxamos mais uma cadeira e convidamos um cronista “de fora” para participar da roda e mostrar sua crônica.

E o primeiro a se sentar é Giancarlo C. Borges, que se define como um observador e adepto de idiossincrasias em excesso, amante da liberdade incondicional e que sofre de um mal sem cura: “muita ideia na cabeça”. É também autor de um belíssimo livro sobre Porto Alegre chamado As mitologias roubadas e também da turma de cronistas do Santa Sede – Crônicas de Botequim, edição 2011. Mas eu já tô falando demais. Vamos à crônica do Gian.

————–

O problema

(Por Giancarlo C. Borges)

“É perigoso ter muitas mulheres.

Quem tem seis, por exemplo, tem cinco oportunidades de ser enganado.”

(Antônio Maria)

foto (1)

Florêncio entrou no bar e buscou a penumbra. O canto estratégico, mal iluminado e perto do banheiro masculino, o recebeu de sombras abertas, cúmplice de seu desejo de discrição. Dali ele teria uma visão privilegiada da entrada e das mesas centrais do “Ninguém me ama”, seu boteco predileto. Alisou o bigodinho cafajeste e sentou-se na cadeira desconfortável.

Tenso, tirou do bolso seu baralho de estimação, companheiro de felicidades e desditas e, depois de escolher com atenção, distribuiu à sua frente as quatro damas. Com as cartas restantes, começou a empilhar um castelo (mania antiga) e, depois do primeiro nível, levantou suavemente a aba do chapéu malandro fora de moda, e contemplou o ambiente. O cheiro amalgamado de cigarro e álcool chegou até seu nariz meio torto, e ele o absorveu com prazer. Estava em casa. Acenou, então, para o garçom mais próximo. Escolado, o rapaz de gravata borboleta rapidamente lhe trouxe um copo de conhaque quase cheio, uma garrafa de cerveja e outro copo, o qual depositou na mesa e logo serviu a gosto do freguês, com espuma.

De olho na porta de entrada do bar, ele bebeu o conhaque numa virada só e, em seguida, o primeiro gole da gelada. Com a língua (ferina) limpou o resquício de espuma do bigode. O malte, amargo e refrescante, clareou sua mente, trazendo à tona o principal motivo dele estar ali, naquele canto, escondido como um cão covarde: por um fim à sinuca de bico sentimental na qual se metera nos últimos meses. Olhou novamente para as quatro cartas na mesa. Suspirou, resignado. Não tinha saída. Afinal, manter quatro amantes ao mesmo tempo não estava sendo nada fácil. Podia até ser motivo de orgulho (patife e machista, que fosse), mas cansava. E muito. Maldita semana aquela quando, como um predador ébrio e no cio, ele vagara pela boêmia da cidade, e se tornara tão inadvertidamente sedutor para aquelas mulheres. Fazer o quê, sempre fora assim, irresistivelmente gaiato, e desavergonhado.

Mas, em excesso, qualquer coisa pode fazer mal. Qualquer coisa. Por muito tempo, gabou-se de ser um Don Juan infalível, armado de uma virilidade a toda prova e um bigode matador. Hoje, porém, mais consciente e menos varonil, caiu em si, e broxou perante a realidade. Precisava por um fim naquela situação, pelo bem de sua sanidade, e de suas partes íntimas. Para isso, astucioso e canalha que era, engendrou o plano que o libertaria daquele imbróglio romântico, que estava lhe consumindo a liberdade, rareando seu repertório de desculpas e, principalmente, causando um desgaste precoce e perigoso na sua libido.

O plano era simples: convidou cada uma delas para uma noite romântica num bar aconchegante e boêmio, em homenagem à noite que as conhecera. Todas quatro, na mesma noite, no mesmo bar, no mesmo horário. Aquela que, com paciência e lealdade, permanecesse mais tempo à sua espera, seria sua escolhida, e ganharia sua preferência, e o seu coração. Quem sabe, até uma declaração de amor eterno e improvável fidelidade. Para as três que desistissem primeiro, já tinha até uma cartada pronta, um pedido de desculpas que começaria com um simplório e bem intencionado “não entenda mal, o problema não é você, sou eu…” e por aí seguiria.

E elas começaram a chegar. Gostosas, carentes e pontuais. Quase ao mesmo tempo, cada uma foi recebida, e sentou à mesa aleatoriamente indicada. Quase gentilmente foram servidas, e lhe pareceu que elas quase tinham gostado do lugar. O plano estava progredindo, sólido como o seu mal-ajambrado castelo de cartas.

Rebeca, a loira de grandes olhos verdes, foi a primeira a pedir a conta. E apenas meia hora depois de chegar. Pena, ela era, talvez, a mais bonita das quatro. Mas ele sempre a achara meio metida mesmo, e impaciente. Recolheu a Dama de Ouros, e guardou no bolso. Vai embora, também não te quero. Ordinária!

Suely, a experiente ruiva de beijo selvagem, foi a próxima a desistir, minutos depois. Sem problema: ela tinha os lábios meio enrugados e era mais velha do que ele, e isso o incomodava um pouco. E a Dama de Copas se juntou à primeira, descartada. Some de uma vez, deves ter hora certa de dormir. Anciã!

Vanessa esperou pouco mais de uma hora antes de acenar para o garçom. Pagou a conta, olhou para os lados e, sussurrando o que pareceu ser um palavrão, levantou-se e saiu. Do canto, Florêncio a acompanhou, meio arrependido, afinal, ela era muito boa de cama, e sempre lhe parece uma pessoa de bem. Adeus, Dama de Paus. Vaca!

Então seus olhos se voltaram para Jasmyne. Morena altiva, de cabelos negros esvoaçantes e discretamente vesga. E um pouco mal vestida. Mas tudo bem, não se pode ter tudo. Estava decidido, seria ela. Pegou a Dama de Copas e beijou. Minha deusa grega, minha Atena. Rainha!

Convicto, levantou-se cautelosamente para não chamar a atenção, recolheu todo o baralho sem cuidado e caminhou ao encontro dela. Com a maior cara de pau, e uma atuação pífia, jogou rogando desculpas pelo atraso e perguntou o que ela estava bebendo. Pediu o mesmo. Ela sorriu, aceitando a pilha de justificativas e cartas que ele depositava na mesa, antecipando outro frágil castelo. Ele adorou aquele sorriso de fidelidade calma, de quase subserviência, e isso definitivamente a fez se tornar sua preferida. A ela, agora, devotaria sua quase toda paixão.

De fato, o semblante de Jasmyne pouco se alterou no momento em que ela acariciou o rosto de Florêncio, e limpou suavemente o bigode marcado pela espuma da cerveja que ele havia bebido minutos atrás, na penumbra, como um cão covarde. Com um tom de voz sereno, e o rosto quase angelical (não fosse o leve estrabismo), ela represou com um dedo as palavras que saiam da boca dele. Doce e dissimulada, olhou nos olhos daquele homem que mal conhecia direito, e apresentou seu lance:

– Querido, não me importei de esperar, pois tenho algo a lhe dizer. Primeiro, não entenda mal, o problema não é você, sou eu…

E por aí seguiu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s