O poema do elefante por Zeferina Boff

O POEMA DO ELEFANTE POR ZEFERINA BOFF

(Por Felipe Basso)

 “Aos poetas não se pode negar nada.

Tirar, muito menos.”

(Antônio Maria)

felipe maria

A Vó Zefa, minha avó materna, faleceu recentemente, aos 101 anos. No seu enterro, um amigo da família parou ao meu lado e comentou. “Poucas amigas da Zeferina, né?”. Ter amigas vivas aos 101 anos – e mais – que compareçam ao seu enterro é um privilégio que a vida não concede. Talvez a ciência, um dia…

Enfim, como é natural, aos poucos fomos lembrando as histórias da vecchia. Entre tantas (são 100 anos…), a inesquecível é a do efefante. Havia um circo na cidade e não é que o bicho fugiu e foi se acomodar justamente no seu pátio? Parece mentira, né? Mas temos testemunhas vivas. Uma delas é o tio Bídio, para quem a vó ligou para tomar as devidas providências. “Bídio, tem um elefante no meu pátio, vem tirar ele daqui”.

O Bídio não deu muito bola, acreditando que aquilo seria não mais do que o principal indício de senilidade da nona. Passado algum tempo, como ninguém aparecia, ela ligou novamente. “Bídio, tem um elefante no meu pátio! Pode vir tirar ele daqui???” Se fosse um macaquinho, se fosse um rato que ela pedisse para o Bídio ir lá matar, ele acreditaria, mas um elefante? Não, um elefante, não…

Não lembro como meu tio resolveu a situação, se chamou o circo ou a prefeitura, mas o caso teve um final feliz para o Bídio, para a vó e para o elefante.

O fato é que o descrédito com que meu tio  – ou qualquer um de nós – trataria a situação, me lembra o descrédito dado aos poetas quando falam do seu amor à Poesia.

Por que suportar muitas vezes a desonra, a miséria, a fome, a humilhação, como tantos poetas o fizeram, em nome de algo que as pessoas talvez nunca venham a entender, nunca venham a dar valor? Talvez porque poetas não sejam loucos ou senis, ou talvez, como disse o Mario Quintana, sejam loucos lúcidos, talvez porque a poesia, para eles – os poetas – está em todas as coisas: em um anúncio de jornal, em um cadeira vazia, em uma criança faminta.

Talvez por isso essa violência desesperada em busca de algo, quem sabe, impossível; essa necessidade de se revoltar contra tudo que não é humano; essa piedade para com aqueles com quem a vida não teve a menor atenção.

Quando me davam os pêsames pelo falecimento da vó Zefa, vários diziam: “Basso, sempre lembro da história do elefante quando falam da nona”. Eu espero que um dia, talvez, quando eu estiver fazendo companhia à Zeferina, digam aqui embaixo: “Ah…o Basso, quando falam do Basso, eu lembro daquela história dos poetas…”

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