A tua morada

(Por Roberto Marques)

“Para que haja poesia não é preciso que

chova, nem que se escrevam poemas.”

 (Antônio Maria)

felipe maria

Arremessei a palavra amorosa na parede fria de tua casa silente. Triste. Não percebia eco. Nem um murmúrio dissonante ou incompreensível. A assepsia dos cômodos me contaminava. Procurei pelos teus cantos um pouco de caos. Uma cisma existencial qualquer perdida em meio àquela meticulosa sobriedade. Um naco de tua fome para repartir.

Arremessei a palavra esperançosa na parede esmaecida de teu claustro. Você ouvia com atenção breve e irresoluta sobre a inquietude do poeta: O mundo é alimento. Por vezes, sorvido lentamente. Por vezes, devorado sem espera. Ou mastigado com ímpeto. Ou ruminado. Impelirá ao tempo a cadência anímica de sua essência. Mas o poeta é um faminto. O poeta está sempre com sede. Necessita consumir para não ser consumido. No metabolismo incerto, no movimento inexato das entranhas, busca a energia que lhe substancia e significa.

Arremessei a palavra bêbada na parede intrincada do teu labirinto.  Meus lábios te eram como os de um boneco de ventríloquo. Balbuciavam um quadrado manifesto desconexo da realidade tangível e plana. Assingelei a forma: Olha, basta olhar pela janela. As árvores anunciando a brisa calma. O som do outono nas folhas. O sabiá-laranjeira que ainda te visita, apesar de um descaso glacial. Percebe que as vestes mais belas do que assistimos são imateriais.

Arremessei a palavra vã na parede espessa do torpor. Não havia viço. Nem um sinal de força latente. Sequer um pedido de socorro. Entendi que nada viria a acudir aquela índole. O cunho de uma existência oca e insípida.

Inabitei tua morada com zelo. As janelas ainda cerradas pelo desassossego com a luz. Esgueirei-me pela mesma porta entreaberta que entrei. Esta que agora se fecha sem compreender nem âmago nem superfície. Avizinham-te casas iguais. Olhos me espiam. Curiosos, mas impassíveis. Como se eu fosse um louco vagando pela lua. Que, por sinal, está cheia. Belíssima como sempre. Aproxima-se com seu branco doído esta noite, companheira que é dos líricos incorrigíveis.

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