Nora Ney

(Por Gerson Kauer)

“Sangue não lava coisa alguma. Só suja.”

(Antônio Maria)

maria volta ao bar 4

Saulo já havia tentado suicídio duas vezes. Tem até uma piada entre os amigos. Dizem que quando ele pensa nisso, nos seus momentos íntimos, se sente tão incompetente que tem vontade de se matar, mas se falhar de novo, coitado, morrerá de vergonha.

Saulo não gosta da esquerda. Acha inadmissível tratar outros os por “companheiro” ou “camarada”. Estas intimidades partidárias forçadas, a doutrina, as cartilhas…Saulo odeia as manias da esquerda. Crê, Saulo, de maneira peremptória, que todo socialista só o é, com os bens alheios.

Saulo acha que todo pobre é vagabundo e que todos os muito ricos são desonestos. Ele, sábio, seguiu o caminho do meio. Também não gosta de garçons excessivamente educados. Aqueles que a toda hora dizem “com sua licença”, e a cada contato, lhe desejam alguma coisa. “Bom apetite” , “bom proveito”, “tenha um excelente dia”, “ótima escolha senhor”. Odiáveis criaturas!

Sua tristeza profunda, como ele mesmo diz, “é uma coisa química, tem momentos que tudo perde o gosto.” Quero dizer, as poucas coisas que ainda caem no gosto de Saulo . Sua péssima pontaria o salvou nas duas vezes. Numa o tiro passou bem a direita do coração. Na outra, tentando corrigir, a bala passou a esquerda e acima. Agora Saulo está mais estável – toma uns remédios – mas ainda guarda a arma.

Ninguém entende o que a Cida viu no Saulo, moça alegre, cheia de vida. Ela estava entrando no bar e achou engraçado aquele cara brigando com o garçom que queria manter seu copo cheio. “Eu sei me servir! Sai daqui,” gritava. Era um ranzinza engraçado e ela puxou assunto. A vida às vezes une pessoas diversas, buscando uma miscigenação evolutiva.

Ficaram oito anos juntos, ele resmungando e ela achando engraçado.

Saulo anda bebendo muito, parou com os remédios e agora está no bar, tomando grandes goles de coragem para fazer o que deve ser feito. “Se ela não vai ser minha, que não seja de mais ninguém.” Pensa, enquanto esvazia o copo.

– Com sua licença, senhor…

Saulo dá dois tiros no garçom. Ninguém entendeu, nem os colegas de cela.

Uma das balas se alojou na parede do bar, depois de atravessar o peito de Nora Ney, numa reprodução da capa do disco “Ninguém me ama”.

Leandro, o garçom, se recupera bem do tiro no pé.

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