Tardes Emolduradas

(Por Vanessa Conz)

“É bom ter muitas lembranças, para a velhice.

À falta de melhor, fazem companhia.” (Antônio Maria)

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“Querida Alva,

Desde a última vez que lhe escrevi, cá estou na mesma situação – provavelmente a única daqui para diante. Aqui, neste continente, já há alguns dias amanhecemos primavera e isso contribui para o ânimo de escrever.

O jardim está tão colorido que não posso deixar de lembrar das nossas tardes na Redenção. Quantas foram, Alva, centenas? Como são boas para mim nossas memórias, amiga querida, agora que, sentada nesta cadeira, vejo as tardes emolduradas em minha frente. Nunca imaginei que o tempo um dia passaria tão moroso…Se soubesse, Alva, teria corrido mais quando resolvíamos varrer a cidade de cima abaixo, deixando nossos pés conhecerem as pedras de cada esquina. Éramos nós saudosas das ruas que não conhecíamos, seguidoras do Quintana, lembra? Se soubesse, eu teria fotografado todos os nossos domingos, pois ainda sinto meus braços preguiçosos daquelas tardes de frio e sol, quando deitávamos no parque.

Se soubesse, eu teria invadido as salas de cinema todas as noites e teria chorado, chorado e chorado, sem o ínfimo acanhamento. Se soubesse, eu teria aceitado todos os convites possíveis para os chás, festas e bailes, vestindo-me sempre deslumbrante. Mas o máximo que podemos exigir do tempo é que ele nos deixe espiar os dias passados, porque caminhando, ele só vai para frente, não é mesmo? Então agradeço a você por termos compartilhado memórias incríveis, ainda sabendo que posso moldá-las a meu bem entender. Na velhice não é costume darem-nos crédito, então fico à vontade para ajustar algumas lembranças. Recorda daquele dia de inverno na praia em que caímos na água gelada? Antes que você responda, eu sei que não tive coragem, mas hoje preciso acreditar que me atirei e, querida amiga, prometa que este será mais um de nossos segredos! Olhando para meus pés, agora tão fracos e magricelos, vejo o quanto eram fortes, embora distraídos. Seguiam tão rapidamente, que mal notavam o corpo cheio de amor que carregavam. Ainda bem que amamos até a borda, minha querida! Disso sim não teremos arrependimentos – amamos nossos parceiros, nossos filhos, nossos amigos até doerem e transbordarem de felicidade nossos corações, dos átrios aos ventrículos, até sobrevivermos a todos para estarmos aqui hoje lembrando-nos de tudo…

Amiga, se o destino fez com que vivêssemos mais do que todos os nossos familiares, o que inicialmente parecia um castigo, hoje sei que ele nos deu um privilégio. Afinal, olhar por esta janela não pode ser uma pena, deve ser algum tipo de redenção. E o que fizemos nós de errado nesta vida, a não ser seguirmos nossos sonhos?

Aguardo com ansiedade sua próxima carta. Grandes abraços de sua amiga centenária.

Alice”

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