o tempo, sempre o tempo!

(Por Zulmara Fortes)

“A velhice chega de repente, às vezes como um pássaro

que pousa fatigado na varanda, ao entardecer.”

(Antônio Maria)

 

maria volta ao bar imagem

          A primeira vez que envelheci foi aos 30 anos. Um belo dia me olhei no espelho e vi fios de cabelos brancos. Eles já estavam ali há algum tempo, mas eu dava um jeito de esconder. Ora jogava o cabelo para o lado, ora usava presilhas. Mas, naquele dia eles se mostraram para mim de uma forma tão escancarada que não pude mais ignorá-los. Tive que resolver o problema: passei a tingi-los. Foi um marco. A partir daquele momento comecei a observar que taxistas e comerciantes já me tratavam por senhora. Quando acostumei com a nova condição, percebi que não estava velha, estava adulta.

A segunda vez que envelheci foi aos 50 anos. Um belo dia me olhei no espelho e vi que minhas linhas de expressão estavam muito marcadas. Havia bolsas sob os olhos e outros (nem tão) pequenos defeitos. Eles estavam ali há tempos, mas eu não queria ver. Investia em cremes cada vez mais caros, protetores solares cada vez mais potentes e exercícios faciais ensinados em programas de televisão. Até que assumi: não dava mais para sair sem disfarce, suave que fosse. Precisava usar maquiagem. Quando me recuperei do susto, percebi que eu era mais do que adulta, era madura.

O tempo e a auto-estima – ou o espírito de sobrevivência – se sobrepõem a todo o resto. Em algumas semanas já estava acostumada com minha nova figura e gostando dela no espelho. Depois que a ficha cai fica mais fácil, vive-se melhor.

Muitos envelhecimentos ainda estão por vir e sei que virão, um a um, lentamente. Entretanto, para mim a descoberta será sempre num clic. Um momento único – meu com minha imagem.

Enquanto meu choque de realidade for apenas com meu reflexo no espelho, a vida seguirá sem grandes transtornos. Mas, haverá momentos mais dolorosos: quando a denúncia vier das minhas falhas motoras, da memória confundida, da dependência de medicamentos; quando meu corpo, extenuado de tanto viver, se entregar ao seu próprio entardecer; quando, definitivamente envelhecida por dentro e por fora, eu não puder mais me remendar, nem me disfarçar.

Da última vez que envelhecer não haverá susto, apenas contentamento por ter chegado lá.

 

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