Bergamotas para Aninha

(Por Dora Almeida)                    

                   “Angústia é o resultado da perda de intimidade

de um homem consigo mesmo.”

(Antônio Maria)

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 Passo meus dias sempre ligado. Mas não em mim, no que me acontece ou deixa de me acontecer, nas decisões que devo tomar. Fico ligado é no celular, sempre checando a caixa de e-mails, as mensagens. Não consigo desgrudar os olhos do Facebook, curtindo as postagens, respondendo a questões que não tenho o menor interesse. Fico curtindo textos enfadonhos, palavras soltas, vazias e, pasmem, até compartilhando coisas que nem leio, só vejo a foto e o título. Se for autoajuda, se estiver reclamando do governo, do preço do tomate, da novela da Globo, pronto, compartilho. Até novena para Nossa Senhora dos Jogadores de Futebol eu compartilho. Notícias do dia, protestos, gastos com a Copa, crimes, assaltos, de tudo isso eu sei. De tudo eu tomo conhecimento.

Só não tomo conhecimento de mim, do que eu preciso, do que eu sou ou do que eu devo ser. Sei que tenho de fazer as leituras do mestrado, que estou atrasado com as entregas para o meu orientador. Mas como dizer para mim que sou um relapso? Não consigo. Como me fazer entender que preciso me desculpar com a Aninha? Como explicar a minha irmã porque não fui ao aniversário dos gêmeos? Sou um estranho de mim mesmo. Como falar de intimidades a um estranho?

Pela manhã acordo, olho no espelho embaciado do banheiro e não me reconheço. Não sei mais quem é este homem de cabelos compridos que me olha com cara de espanto. E decido.  Hoje me reconcilio comigo mesmo.

Abro as janelas para deixar entrar o sol e o ar frio deste começo de inverno. Vejo um menino que passa vendendo bergamotas. Lembro que Aninha adora comer bergamotas, principalmente num dia de sol e frio como hoje. Faço um café bem forte. O cheiro do café me ajuda a decidir. Chega de angústia, de dúvidas, de indecisões. Como dizia minha avó, ”faça agora e arrependa-se depois, se for o caso”. Recomeço as leituras interrompidas, faço anotações, a manhã passa rápido.

O telefone toca. É Aninha. Combinamos nos encontrar mais tarde, “preciso te pedir desculpas, meu amor”.  Ligo para minha irmã e digo que passarei lá no sábado para ver as crianças. Então me dou conta que não abri o Facebook ainda. Sorrio e deixo para mais tarde. Preciso cuidar dos meus assuntos, mandar o e-mail para o orientador, passar na livraria e comprar o “Cem anos de solidão “, em espanhol, que Aninha me pediu outro dia, cortar o cabelo. Troco de roupa e, ao me ver no espelho, percebo que estou com outra cara. Cara de quem retomou a vida. Quase feliz.

Saio para a rua. Cumprimento o porteiro, que me olha com ar de espanto: ” Dia lindo, não? Adoro estes dias ensolarados de inverno. Acho que vou comprar umas bergamotas”.

 

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