Conheça o cronista – Dora Almeida

São apenas 29 dias até o lançamento do livro Maria volta ao bar. Está na hora – aliás, mais do que na hora – de conhecer um pouco mais de cada um dos cronistas. Para nos apresentarmos, encontramos uma forma diferente. A primeira dirá quem somos no dia-a-dia, aquela minibiografia tradicional. A segunda, é quem nós somos na mesa do Apolinário, bar em que escrevemos a crônica. De hoje em diante, a cada dois dias, um cronista será apresentado. A estreia é com a Dora Almeida.

Dora Almeida

DORA ALMEIDA

Dora Almeida. Nascida em Dom Pedrito, mora em Porto Alegre. Professora de Matemática do ensino fundamental e, disso, aposentada. Tem uma filha, Dóris, professora da UFRGS, da qual se orgulha muito. Também um neto, Francisco, por quem é apaixonada. Estuda francês e valoriza bastante um bom papo com amigos. Otimista, procura o lado bom da vida, embora, confessa, nem sempre seja possível encontrá-lo.

Dora Maria nasceu no ano passado, quando, aos 70 anos, resolveu postar seus textos num blog. Diz que assim não corre o risco de, como fazem os velhos, repetir (pelo menos no blog) as mesmas histórias. Descobriu seu lado MARIA ao conhecer Rubem Penz, com quem fez a Oficina Literária Porto Alegre Soa Assim e que, agora, a apresentou a Antônio Maria. Sonhadora, deixa correr a imaginação e escreve sobre o cotidiano das pessoas. Tem certeza de que todos somos personagens do grande romance da vida.

Volta por cima

Dora Almeida

Uma fronte descoberta é a beleza da altivez e da personalidade. (Antônio Maria)

Cabeça baixa, mãos no queixo, cabelo caído na testa, no banco de vestiário Domingão repensa sua trajetória no futebol. Moleque ainda, já dominava a bola nos jogos com os meninos da vila. Nessa época ele era Dominguinhos, mas, aos poucos, foi se transformando em Domingão. Aos doze anos passou a jogar no time juvenil de sua cidade natal. Aos dezessete, profissionalmente, no Ponte Nova, na capital. Artilheiro, fazia uma média de 9 gols em 4 partidas, o que atraiu os olhares de todos.

O ídolo de Domingão era Heleno, jogador de futebol dos anos 1940 e 1950, que entrou para a história como um dos maiores craques do futebol sul-americano. Como Heleno, Domingão penteava o cabelo para trás, deixando a testa descoberta. Altivo e arrogante, às vezes beirava a prepotência no trato com os companheiros, mas, diferente de Heleno, tinha uma vida regrada, sem bebidas e sem noitadas. Não tinha amigos boêmios nem frequentava a alta sociedade. Afinal, os tempos são outros. O Clube dos Cafajestes não existe mais e ele também não queria ter o mesmo fim de Heleno, embora admirasse o polêmico jogador.

Por algum motivo, nos últimos jogos, Domingão mostrou-se um fracasso. Nenhum gol. O artilheiro andava cabisbaixo, a torcida não o perdoava, atribuindo a ele as sucessivas derrotas do Ponte Nova. Cabelo caído na testa, agora estava bem longe de parecer com Heleno. Foi aí que entrou Adão, o novo técnico contratado para recuperar o time. A pressão para retirada do jogador era muito grande, mas Adão acreditou nele. Na convocação para a final de campeonato, contrariando todos, lá estava Domingão.

É chegada a hora do jogo.  Domingão levanta do banco, junta-se aos companheiros para a oração e entra em campo, ainda de cabeça baixa e cabelo na testa. O time adversário, aos 20 minutos do primeiro tempo faz um gol. A torcida do Ponte Nova se desespera e começa a gritar – Adão, Adão, tira o Domingão, tira o Domingão!

Domingão ouve o grito ensandecido da torcida e, como que movido por uma força estranha, descomunal, toma conta da bola, dribla os jogadores e faz um gol espetacular. A torcida fica em silêncio, estupefata. Termina o primeiro tempo.

Domingão, no vestiário, pensa em Heleno. Passa a mão no cabelo comprido, coloca uma tiara, e deixa a fronte descoberta. Adão lhe dá um tapinha nas costas e diz – conto contigo.

A partida recomeça. Aos 15 minutos, Domingão marca o segundo gol. A torcida delira. Domingão olha para a multidão, coloca o dedo indicador nos lábios e pede silêncio.

O Ponte Nova ganha o campeonato. Graças a Domingão. Como Heleno, ele sai do campo altivo, de fronte descoberta, agora ovacionado por todos. Aplaudido pela mesma torcida que, minutos antes, o considerara um fracasso.

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