Conheça o cronista – Felipe Basso

Felipe Basso não falou uma única palavra até os quatro anos de idade e, ironicamente, se formou em Comunicação Social. Acorda cedo e dorme tarde da noite. Já trabalhou como jornalista em órgão público, como produtor de TV, assessor de imprensa, colunista no Portal Baguete e redator publicitário, além de ter participado do projeto Santa Sede – Crônicas de Botequim (2011). Não planejou ficar pobre, simplesmente aconteceu.

Felipe Maria nasceu falante, mas, ironicamente, é mais ouvido quando escreve. Acorda tarde e dorme cedo. Da manhã. Ama a noite porque ela tem as duas coisas essenciais para um escritor: o barulho e o silêncio. Ama a crônica porque os críticos a consideram um gênero menor, e isso é quase a liberdade. Não aconteceu de ficar pobre, simplesmente foi tudo planejado quando virou escritor.

Felipe Basso II

Quando eu era madrugada

                                                                        “O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.” (Antônio Maria)

Amanheci calado. Amanheci e permaneci calado. Eu não sei se passaram dias, meses, se passaram anos. Os amigos perceberam o meu silêncio e comentavam entre si: que diabos tinha acontecido com aquele cara?

Amanheci e não busquei o cigarro. Amanheci e não levantei da cama. Não saí de dentro de mim. Amanhecera, mas eu ainda era madrugada.

Amanheci e, assim, sem palavras, recusei displicente o convite para padrinho do casamento. O compadre que me perdoasse, mas, naquele dia, me era impossível.

Amanheci já disposto a recusar todo e qualquer trabalho, mesmo precisando saldar dívidas mortificantes. Os credores que me executassem, mas era imprescindível que eu permanecesse deitado. Eu não levantaria, mesmo que para honrar compromissos.

Amanheci morto. Sem espaço.

Amanheci e deixei a página em branco.

Amanheci sem ninguém ao meu lado.

Eu te procurei, ansioso e tardio, eu te procurei em todos os lugares – bares, igrejas, hospícios. Porém, te busquei por caminhos sinuosos. Fui tolo em não perceber o que estava bem à minha frente.

Você estava ali o tempo todo. O tempo é que não estava conosco. Quase sempre, o tempo é fulminante com quem se descuida. Se não estivermos atentos, de repente, é noite.

Nosso Senhor, entretanto, é misericordioso com aquele que aceita a dor que lhe compete. E me deu uma segunda chance. Eu havia me perdoado.

Naquele instante, me foi concedida a eternidade. Essa eternidade que só os amantes conhecem e que um dia eu também havia conhecido, mas da qual me esquecera completamente. Essa eternidade que eu havia recusado por acreditar em verdades ignorantes.

Agora, entendo. Amar não é uma questão de tempo. Amar é jamais deixar a página em branco.

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2 comentários sobre “Conheça o cronista – Felipe Basso

  1. Sensacional a definição do Felipe Maria.
    Sensacional o trabalho dele e dos demais cronistas.
    Como boa colôna, só tenho duas coisas a dizer (ou melhor, escrever):
    Para Béns

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