No bar dos Marias

“Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar…”, confidenciou Antônio Maria ao seu grande amigo Vinicius de Moraes, o Poesia, como o pernambucano lhe chamava. Não chegou a morrer no bar, mas a caminho, mais exatamente às 3h05 da madrugada de 15 de outubro de 1964.

Cinquenta anos depois, Rubem Penz carrega Maria novamente para a noite. Agora, porém, nas mesas do Apolinário, na Cidade Baixa, em Porto Alegre. E desde o início, essa é a ideia de Penz com sua oficina “Maria volta ao bar”: trazer o espírito do cronista para o lugar onde ele morreria (morte apenas biológica) – a mesa do bar.

E foi ali, entre copos de 300 ml de chopes e sanduíches de carne de panela, que entrevistamos o Rubem Maria (logo, você vai saber porque ele se chama assim). Pulamos a parte chata, de saber por que, como, quando e onde. Fomos direto para o que interessa.

Maria volta ao bar (MVB): O que tem a oficina de tão especial?

Rubem: Para entender “Maria Volta ao bar” é preciso dar um passo para trás. Um, não: cinco. Até o ano de 2009, eu ministrava oficinas de crônica em centros culturais. Ótimos: salas brancas, mesas brancas, quadro branco. E, quanto mais eu estudava o gênero, quanto mais eu lia as biografias e perfis dos maiores escritores da fase de ouro da crônica brasileira (anos 1950-60), menos o que descobria combinava com tamanha pureza. Criei, então, a “Santa Sede: crônicas de botequim”, uma oficina literária para acontecer dentro de um bar. À época escolhi o boteco Matita Perê, na Cidade Baixa. Para a Safra 2010 (a primeira), recrutei alguns ex-oficinandos, um jornalista experiente e alguns entusiastas do plano. Proposta: ao final dos trabalhos, editaríamos um livro.

Havia muitos riscos: música ambiente, barulho, luz um tanto fraca, interrupções dos garçons, desejável consumo de álcool e possível abuso na bebida. Nada do que, a priori, combina com uma aula tradicional. Porém, o que se viu foi o imediato surgimento de empatia entre os colegas, igual àquela experimentada pelos jornalistas que deixavam o trabalho e rumavam para boemia, encontrando-se com parceiros nas mesas dos mais famosos bares de Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais. E o espírito da crônica surgiu intenso. Bingo! Dali em diante, cada ano compôs uma nova Safra e, uma por uma, editaram seus livros (o quinto será lançado dia 10 de novembro na 60ª Feira do Livro de Porto Alegre). Então, desde 2013, segundo ano com o boteco Apolinário de anfitrião, havia uma pressão para que antigos oficinandos voltassem para a mesa do bar a fim de produzir novos textos e, quem sabe, mais livros.

Chegamos ao ponto: “Maria volta ao bar” é tão especial porque agrupou pessoas que já haviam experimentado a proposta do fazer crônica no botequim e desejavam mais. Além disso, ela nasceu para reverenciar um escritor,Antônio Maria, cujo poder de fazer boas e importantes amizades deixou profundas marcas – basta conhecer a opinião dos contemporâneos a seu respeito. Estudar Maria e deixar-se contaminar por sua vida e obra potencializou o espírito da Santa Sede. É um fenômeno raro e precioso.

MVB: Essa amizade era uma característica dos cronistas da década de 1950 e 60. O fato de isso não acontecer mais prejudica a crônica?

Rubem: Sim. As rotinas digitais estão isolando as pessoas. Muitos cronistas, especialmente os literários, sequer pisam na redação do jornal a não ser de visita (eu, incluído). A crônica, texto “ao rés do chão” (Antônio Candido), pressupõe troca humana, conversa, olho no olho. É preciso ouvir o rumor das ruas e sentir os humores da cidade. Também nascem ótimas reflexões da rica troca de opiniões, implicâncias e esquisitices entre amigos quando despidos de vaidade e medo.

MVB: Vocês se chamam de “Marias”, pelo que se pode ver nas minibiografias. O que é isso?

Rubem: A personalidade “mariana” de cada um é quase uma manifestação de patologia crônica. Sintomas: hipersensibilidade, carinho para com os amigos, embriaguez (real e metafórica), voluntariado, melancolia e sede. É nosso “eu Maria” que permitimos apanhar a caneta e compor o texto. Também ele fica comprometido a lançar o olhar generoso sobre a crônica do colega. Para Antônio Maria estar na mesa, conosco, trazemos ele no coração.

MVB: Bares são cheios de histórias. Conte algumas que tenham acontecido na mesa do Apolinário?

Rubem: Como está claro no livro, todas as crônicas nasceram de epígrafes compostas por frases de Antônio Maria. Uma curiosidade é jamais termos encontrado o modo ideal de reparti-las. Experimentamos sorteio, escolha, ordem na mesa no sentido horário e anti-horário, eu (orientador) determinando… No fim, aconteceu de tudo um pouco. Outra curiosidade foi o nascimento de um público (acompanhando o blog e o perfil em rede social) e sua interação. Creio ser esta a primeira oficina literária que recebeu cartas, respondendo-as (algumas vão para o livro). Os funcionários do bar também estiveram muito engajados. Uma de nossas cronistas, Dora, com idade para ser mãe dos seus colegas de mesa, ganhou, inclusive, tratamento VIP: morando a duas quadras do Apolinário, era acompanhada até em casa por um dos garçons. Vanessa Maria ganhou uma filha quando terminávamos o período de escritura. E a menina Cecília ganhou um “Bar de Fraldas” (ao invés do tradicional chá). Para encerrar, uma das noites do nosso encontro casou com o fatídico 7X1 da Alemanha sobre a Seleção Brasileira – a maior tristeza desde o Maracanaço que, por sinal, teve a narração de Antônio Maria. Foi uma noite para termos, entre nós, Marias muito bêbados.

Dora Almeida e Rubem Penz no melhor espírito Antônio Maria

Dora Almeida e Rubem Penz no melhor espírito Antônio Maria

MVB: Antônio Maria foi esquecido pelos brasileiros, não? Na definição do Rubem Penz, quem foi Antônio Maria?

Rubem: Um homem sensível e intenso. Alguém para quem a alma humana se mostrava tanto nas fragilidades quanto nas virtudes e, por ser impressionado com tamanha intensidade pela vida, coube a ele transpor para sua obra frases e conceitos atemporais. Aprendemos muito com Antônio Maria. Sobretudo a nos derramar sem medo da patrulha dos medíocres e dos ressentidos. Invejamos sua franqueza e experimentamos em nosso texto. Onde ele estiver, esteve sempre conosco!

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