Conheça o cronista – Gerson Kauer

Gerson Kauer nasceu em Montenegro, continua lá, desenhando, escrevendo, fotografando e sendo publicitário. Já foi atendente de farmácia, limpador de fogões, serigrafista, diagramador de jornais e pintor letrista. Hoje, das letras quer o melhor. Em vez de pintá-las, busca extrair suas cores. Desde que participou da Oficina Santa Sede – crônicas de botequim, tomou coragem e hoje escreve e publica. Sem moderação.

Gerson Maria é boêmio. Frequenta botecos em Montenegro e onde quer que estejam. Inspira-se no bar, encontra seus pares, faz lá suas rezas. Gerson Maria é noturno, ao contrário do outro. Dorme tarde, para desespero do outro. Vive para a arte, para alegria do outro.

Gerson Kauer01

O Levitador

“Muitos, até hoje, lutaram contra sua vaidade.

Mas quem a venceu?”

                                                                                                                    (Antônio Maria)

 A vida, se a olharmos do alto, é tragicômica. Neste palco, somos atores e platéia. Algumas histórias que muitos acham engraçadas, para mim, encenam apenas sua tragédia. Augusto, o levitador, é um destes casos. O sorriso envergonhado pela ausência dos incisivos revela uma humilde e sofrida figura. O sonho que lhe resta é que o Universo lhe conceda uma glória para que ele possa mostrar algo incrível ao mundo. E com isso mudá-lo. Augusto é um homem sem instrução. Um homem sem maldade.

Não é a crença sólida daquele adulto, em seu seu superpoder infantil, que me deprime. Também não são as explicações simplistas, eivadas de chavões místicos sem conexão, que me causam desconforto.

O que me incomoda não é o levitador, mas o riso dos que têm os pés no chão. Esta tendência que temos de achar engraçada a desgraça que é a ignorância. Há séculos rimos dos ignorantes, dos desconectados, desajustados, bêbados e pirados de carteirinha. É o riso dos superiores, o riso da vaidade. Por vezes estimulamos a manutenção de vidas caricatas para nosso circo particular. Ria do néscio, aplauda a humilhação. O show deve continuar.

Um cinegrafista acompanha de moto o levitador, enquanto narra patéticas tentativas de vencer a gravidade. Por vários quilômetros aquele homem corre, salta, grita seu mantra.

No final, esbaforido, dá uma explicação sem nexo para o fiasco, seguida da triste revelação de que a crença no impossível se mantém inabalada. Não há lógica, não há discernimento, não há ciência. Só há uma fé e uma esperança vaidosa de ser especial. E a vaidade dos inteligentes segue se divertindo com a dos ignorantes.

Se o levitador levitasse, talvez pudesse ter a visão do alto, onde todos os egos, inclusive o seu, se mostrassem pequenos. E, neste instante, seu desencanto o remeteria ao solo.

Eu ri muito daquele cara que doou um bom dinheiro para uma seita e ostentava um recibo assinado por Jesus Cristo. É trágico, mas eu ri. Já do Augusto, tive pena, talvez por compartilhar com ele o sonho de ver um mundo mais elevado.

Sim. Eu também sou um patético levitador.

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Um comentário sobre “Conheça o cronista – Gerson Kauer

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