Conheça o cronista – Luciana Farias

Luciana Farias. Lu, para uns; para outros, doutora Luciana. Odeia rótulos, mas, exausta de ser a contestadora, convive com eles. Mãe da Isabella, esposa do Marcelo, advogada, gestora e solucionadora de problemas de toda ordem, acha absurdo que o dia tenha apenas 24 horas. Sob o tailleur, esconde seis tatuagens. Acredita que só o rock´n´roll salva. Não teme a morte, apena a partida prematura. Publicou crônicas no projeto Santa Sede – Safra 2013.

Luciana Maria tem personalidade escorregadia. Difícil saber quando fala a verdade. É séria ou debochada, conforme a provocação. Ri da desgraça humana. Faz piada da pequenez de seus pares. Quando contempla sozinha o sofrimento da vida, aceita sofrer. Prefere-se ácida e irônica à sentimental e lamurienta. Crê que há muitos vinhos para provar em tão curta existência. Tem grande prazer em escolher palavras e costurar frases. Seu texto é pura autotradução.

Luciana Farias

Horas escuras

 “A gente não sabe nada sobre as coisas de que tem medo.

Teme, sem discutir.” (Antônio Maria)

 Escrevo-lhe, porque entendo seu martírio. A senhorita recolhe-se para dormir, apaga a luz do abajur de porcelana pintado à mão, herdado de sua tia solteirona, e todos os fantasmas aparecem. A escuridão tem disso. Assim como os olhos fechados enxergam dentro da alma, a penumbra do quarto solitário reflete os monstros que cada um de nós traz em si. O que lhe reserva o futuro? A tal pergunta clássica do demônio, que faz da noite insone seu palco de dança, martela em seu ouvido. Martela, martela, martela. Não que eu tenha em mim sua dor exata, pois minha noite raramente é vazia e meus amanhãs são sempre hojes. Mas compreendo sua angústia. Todas as angústias são irmãs em essência. Daí que imagino seu corpo, para lá e para cá, em meio a lençóis de linho amarelado, suplicando para dormir e acordar livre da incerteza. O não saber sufoca-lhe. As possibilidades infinitas sufocam-lhe. Todas as interrogações sobrepostas sufocam-lhe. Casar-se-á antes dos trinta anos? Herdará alguma fortuna oculta da família? Seguirá a vidinha de costuras para fora e missa aos domingos? Cruzará com um cavalheiro bom partido na banca de revistas da esquina? Terá um casal de filhos com nomes de príncipes? Envelhecerá sozinha em um asilo? Muitas dúvidas, senhorita. Poucas horas escuras restam para seus devaneios. Tudo é hipótese. Tudo é interrogação. Falta-lhe ar na madrugada das perguntas sem resposta. E se tudo der errado? E se sofrer um acidente, ficar paralítica? E se tiver câncer? O copo d`água na cabeceira secou.   Sente calor, sente frio. Sente muito por tantas coisas!  Arrepender-se-á, na velhice, por ter dito muitos nãos? Sofrerá por ter-se afundado na facilidade da inércia e perdido aventuras de felicidade possível? Amargará, no futuro, os dias passados preenchidos com nada, por ter escolhido apenas o que lhe era conhecido? Os ruídos dos vizinhos de cima trazem-lhe, momentaneamente, à realidade. Respire, senhorita, respire. Ainda não acabou. Nunca vai acabar. Todas as noites trarão o questionamento medonho do amanhã que não tem face. Todas as noites trarão o medo do que vem adiante sem aviso, sem modos, sem perdão. Desculpe-me a sinceridade, mas é para seu bem. Agora, durma. Durma e sonhe com o porvir possível e com a ilusão vindoura. Aceite o imponderável. O prazer é opcional. O medo nem sempre.

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