Conheça o cronista – Mariana Marimon

Mariana Marimon nasceu aqui em Porto Alegre e cresceu por aqui mesmo. Funcionária pública desde cedo, é formada – finalmente – em Design de Moda. Tem os dois filhos mais lindos do mundo. Se exercita menos do que deveria, lê menos livros do que gostaria, come mais do que o recomendado, compra mais que seu cartão de crédito permite.

Mariana Maria nasceu quando entrou faceira na livraria do colégio e comprou um caderno com capa do Mickey. Escreveu na primeira página: Minhas Histórias. Criativamente renasce ao longo dos anos, alternando poesia com a vida que segue. Sofre por amor, suporta as alegrias, chora com raiva, ri de nervosa, sonha sempre. Porque é poeta e, portanto, pode.

Mariana Marimon

 

Passeio

                                                                                          “Como é melancólico chegar-se à paz tão perfeita de perguntar pela saúde da pessoa que se amou.” (Antônio Maria)

Não tive coragem de chamar quando o vi passar na rua. Ia como sempre foi, como eu sempre lembrara. Passos leves, descontraídos e sem compromisso, as mãos inquietas, mal posicionadas ao lado do corpo, por vezes levadas ao rosto, e trazendo aquele sorriso curto que tantas outras vezes tinha sorrido para mim – apenas para mim.

Um grupo de pessoas aleatórias corria desordenadamente entre nós. Tive um pouco de vergonha naquela hora. Do cabelo mal penteado e preso baixo na cabeça, retratando toda a displicência que me dominava há anos; da roupa velha, suja e desbotada pela rotina, com um furo no ombro que nem sei bem ao certo como apareceu; dos chinelos frouxos, velhos e duros, que me obrigavam o caminhar de uma menina frágil e cuidadosa. Vergonha da cara lavada com sabonete neutro de glicerina. Sem rímel para sustentar um olhar de “nossa-estou-ótima-obrigada”, nem blush para aparentar saúde, nem batom para forjar um riso.

Eu só tinha saído para buscar a janta. Não tinha saído para enfrentar o passado.

Enquanto ele se aproximava, criou-se uma brecha naquela multidão de corredores, de forma a tornar inevitável que nossos olhares se cruzassem, ainda que por um pequeno instante. E eu sei que nós nos vimos. E nossa história nada breve também sabe. E encontrar mais uma vez aqueles olhos dentro dos meus, me roubou o ar, roubou o chão, roubou a coragem. Como num susto, eu baixei a cabeça, ajeitei a bolsa no ombro e fugi.

Covardemente fugi.

Não lembro se chorei.

Não me lembrei da janta.

Lembro que, depois de chegar em casa, mais sem ímpeto de respirar do que propriamente ainda sem ar, ouvi meu peito apertando – da forma mais kitsch que um coração pode latejar – e dizendo: “que feio isso, de passar reto por quem a gente amou um dia…”

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2 comentários sobre “Conheça o cronista – Mariana Marimon

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