Conheça o cronista – Rubem Penz

Rubem Penz é porto-alegrense. Pai do Ivan e da Clara, escritor, baterista, compositor e publicitário. Cronista no Metro Jornal e outros veículos, tem entre os principais livros publicados O Y da questão e outras crônicasEnquanto Tempo e a série de antologias Santa Sede, crônicas de botequim (organizador).

Rubem Maria é, paradoxalmente, tímido e exibido. Homem amoroso, paternalista e um pouco rígido consigo e com os outros – culpa da ascendência alemã. Faz amigos com facilidade, e, dificilmente, inimigos. Quer vê-lo feliz, comece com uma cerveja e dois dedos de prosa. Daí, só para melhor.

Rubem Penz

Ato de contrição

“A gente conhece quando é Deus que manda as coisas

e quando é o diabo.” (Antônio Maria)

Não esqueça: garçom não existe apenas para servir bebidas, petiscos, pratos ou sobremesas. Nós servimos de válvula de escape para a raiva alheia, contraprova em casos de sedução, companhia aos solitários, estorvo aos apaixonados, separadores de brigas. Emissário das más notícias (a conta) e parceiro nas horas difíceis (essa, deixa que eu pago). Também, talvez principalmente, servimos de confessores aos que perderam o endereço da paróquia, mas ainda creem na remissão dos pecados.

E ele estava na minha frente. Não era a treliça que nos separava, mas o âmbar distorcido de uma garrafa de Johnny Red pela metade. E o homem chorava o pior dos choros: aquele sem soluços ou lágrimas. Choro engolido com raiva, com desprazer. Choro purgante. Queria confessar. Tinha vergonha. E bebia com a sofreguidão dos náufragos. E mastigava seu desconsolo como quem tritura amendoins. E triturava amendoins como quem rói um osso. É sempre assim, não basta comer a carne…

Por duas vezes aprumou-se, ajustou os ombros, coçou a garganta, engoliu, bateu na mesa, puxou o ar mais fundo… E desistiu. Era como se um anjo pousado no ombro direito soprasse, melodicamente: que isso, Adamastor? Olha a fome no Haiti. Olha a situação do Oriente Médio. Olha a aparência da tua vizinha do 104 depois da décima sétima plástica. Isso é sofrimento, Adamastor. Isso é dor. Você deveria estar com vergonha. Vergonha de ligar para algo tão pequeno. Fútil. Passageiro.

Então, os olhos dele se perdiam por instantes num horizonte idílico e calmo… Quem sabe o mar. Quem sabe um trigal dançando ao vento. E recolhia os ombros para frente. E subia o copo até a boca. E sorvia mais um gole. O líquido descia quente e um demônio parecia sussurrar, áspero, em sua orelha esquerda: você vai deixar assim, Adamastor? De graça? Esquecer o que foi dito, relevar o que foi feito, perdoar a traição? Isso não se faz nem para cão sarnento. Você é um homem ou um rato? – era quando Adamastor pegava amendoins como uma escavadeira e despejava o conteúdo na bocacaçamba.

Eu não fazia ideia de qual seria o lado vencedor. Fiquei apenas ali, parado, secando o copo sem tirar os olhos dele. Admirando dois lados do sujeito esgrimarem – ataque, defesa, contra-ataque. Um florete, a qualquer momento, alcançaria o coração. Gestava o pior dos choros: lamento de promessa contínua, de fim incerto. Adamastor era um homem bom. Um cliente ainda melhor. Mas nunca deu sorte com as mulheres. Agora estava postado diante de mim, seu confessor, ajustando os ombros pela terceira vez, coçando a garganta, tossindo amendoins e limpando a mão nas calças. Segurando o copo a meio caminho do gole, batendo na mesa com a outra mão. Pronto para falar. Para gritar. Para urrar!

Foi quando correu em seu rosto uma lágrima. Uma só. E eu o absolvi.

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