Queima de arquivo

Luciana FariasPor Luciana Farias

“Eu tenho todas as belas coisas

da minha silenciosa mentira” (Antônio Maria)

Relendo Oscar Wilde, lembrei de você. Dorian Gray. Não que você tivesse aquela beleza ou frescor de juventude. Aquele quê de anjo mau irresistivel. Sem maquiagem, você era quase feia. Mas, ah, como vendia seu peixe com maestria. Sua inteligencia era evidente. Sua verve tornava-lhe linda e seus gestos hipnotizavam. Todos a sua volta encantavam-se com a luz que lhe emanava dos olhos quando era o centro das atenções. Brindavam à sua presença mesmo sem saber o porquê. Era figura respeitada em todas as rodas sociais. Os homens fantasiavam. As mulheres lhe invejavam. Você provocava êxtase coletivo onde estivesse. Mas só estava onde lhe havia motivo. Sua missão era conseguir favores. Guardava, em seus arquivos secretos, nomes, números de telefones, endereços, fotos, cópias de documentos obtidos em troca de sorrisos, promessas e decotes. Suas gavetas tinham poder de cassar mandatos, falir empresas e destruir famílias. Vivia disso e vivia bem. Seu preço era alto, mas raros não pagavam. Eram todos reféns no fim do jogo. Comigo foi engraçado. Você pensou, certa vez, que eu tinha influência politica, porque era da imprensa. Deixou-me entrar em sua casa. Quando descobri seu esquema, você riu e disse que pouco se importava. Um zé-ninguém que não se vende é inofensivo. Não por ter grandes valores morais, mas porque não dispõe de informação relevante para entregar. Você tinha razão sobre minha falta de poder nos altos círculos, mas custou a se dar conta de meu poder sobre você. Quem lhe tinha na mão era eu. Sua máscara de estrela de cinema não funcionava comigo. Talvez eu tenha sido o único a encarar sua real identidade. Você era a própria fraude. Talvez até seu nome fosse falso. Confesso que, durante um tempo, apesar de tudo, gostei da história. Aproveitei. A mentira sórdida envolta em estola de pele lhe caía muito bem. No dia em que você cansou de brincar, fui embora. Sem reclamar. Mesmo sabendo de seus segredos, não penso em lhe delatar ou chantagear diante da high society. Seus arquivos sujos, contudo, ditarão as respostas para o futuro. Talvez seu fim seja trágico, ridículo ou deprimente. Ou mesmo sem graça e feliz. A verdade é que nada mais depende de você. Poderia dizer-lhe, ao final, para trocar as fechaduras, guardar pastas em outro lugar ou até mudar de casa. Mas, não se assuste. Quem sou eu, senão um pobre zé-ninguém inofensivo?

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BB-342-10206-2406

Linda Grossi  Por Linda Grossi

                     “Só se saberá verdadeiramente de um homem depois de morto,

quando o forem vestir.” (Antônio Maria)

– Vai com Deus, Chico!

Francisco morreu moço, 43 anos, vítima de atropelamento por moto. Antônia, a viúva, ficou surpresa quando ligaram do necrotério para fazer o reconhecimento. Foi lá, com os cinco filhos e a vizinha metida, levando a melhor roupa para vestir seu amado marido pela última vez.

O legista, para confirmar que Francisco era mesmo Francisco, perguntou o que significava a minúscula tatuagem atrás da orelha esquerda.

– Tatuagem? O Chico nunca gostou destas coisas. Seu moço, não gastamos com nada que não seja comida. Se tem tatuagem, não é meu marido não.

Ledo engano – Francisco tinha uma tatuagem: BB-342-10206-2406.

Sem dinheiro para velório, o enterro aconteceu no mesmo dia. Só Antônia, os cinco filhos e a vizinha metida. Nem um padre conseguiram chamar, não tinham como pagar a condução para mais um.

Os dias passaram e a sequencia de letras e números não queria sair da cabeça de Antônia. Não entendia como vivera nove anos sem ver aquilo. Está certo que o cabelo do marido tapava suas orelhas, mas não ver algo tão estranho, era realmente estranho. Incomodada, perguntou à vizinha metida o que ela achava da história:

– Ah, Antônia, isto está com cheiro de sacanagem. Ou quem sabe, é uma conta misteriosa?

– Bingo!. BB é Banco do Brasil.

Foram até o banco da rua de baixo, onde informaram que a conta pertencia à agência 342, no bairro mais nobre da cidade. Desconfiando de tudo, juntaram os trocados e se foram. Explicaram para vários funcionários o caso até serem encaminhados ao gerente.

– Que prazer em lhe conhecer, Dona Antônia, que prazer. Nunca vi um homem tão apaixonado como seu Francisco. Vivia falando na senhora, Dona Antônia. Agora eu entendo suas atitudes…

Atitudes? Antônia ficava cada vez mais perdida.

– Que homem, seu Francisco! Mesmo tendo nascido em berço de ouro, depois que a conheceu, resolveu fazer um voto de pobreza e doar sua herança para caridade. Dizia que não tinha outra forma de agradecer a Deus por tanta sorte em ter te conhecido. Ele se dizia abençoado por a senhora ter lhe dado uma família tão amorosa. Que homem, seu Francisco! Que homem!

No ônibus de volta, Antônia foi pensando nas dificuldades de sua vida. Doeu lembrar as madrugadas na fila do posto de saúde com os filhos ardendo em febre. As mãos machucadas pelas tinas de roupa que lavava para fora. O frio que passavam no inverno com poucas cobertas. O leite em pó que era mais do que diluído para tentar aplacar a fome de todos os pequenos. As noites em claro costurando as roupas que passavam de um corpo para outro. Doeu lembrar seus sonhos de menina. Doeu muito.

Não parou em casa, foi direto ao cemitério. Por quase uma hora olhou a cova rasa em sua frente. Pensou na vida. Chorou… Pensou na vida que poderia ter vivido. Gargalhou… Pensou que não tinha mais vida para seus sonhos. Chorou de novo…

– Que o Diabo te carregue, Francisco!

O Sincero

         Gerson Kauer01

Gerson Kauer

“O homem sente estranho prazer

em dar notícias tristes.” (Antônio Maria) 

O Gustavo, depois que frequentou um ritual xamânico e fumou uma planta sagrada, jamais conseguiu mentir.

” Voltei do transe e soube, na hora, que toda a mentira tinha saído de mim! ” Contava com orgulho.

” Hoje, quando me perguntam algo e vejo que a minha sinceridade vai causar traumas, fico quieto. ”  O Gustavo é um cara muito quieto. E solteiro. Nenhuma relação sobreviveu depois de seu renascimento místico.

– O que achou do meu cabelo amor?

– Bah! Tu ficou a cara da Janis Joplin!

Pro Guto, ser a Janis Joplin é um elogio.

Conviver sem as tão necessárias mentiras sociais é impossível. Precisamos ouvir, de outras bocas, o som dos nossos pensamentos.

O Guto se tornou a pessoa ideal para dar noticias tristes. Ele gostava. Considerava sua missão no mundo, por isso foi conduzido até aquela planta.

“Não são as noticias que machucam, é a vida. A verdade nunca fere, a mentira sim.”

Este era mais um dos famosos provérbios de Guto.

Perdeu as contas de quantos avisos de falecimento e tragédias levou corajosamente ao conhecimento de parentes das vítimas. Empresas o contratavam para demitir funcionários, ele fazia questão de expor os reais motivos. Fez muitas inimizades.

Foi numa manhã agradável de setembro que os amigos o incumbiram da sua mais ousada missão. Comunicar ao Pedro Bala que sua esposa havia fugido com o Zé Galinha. Ela não estava visitando a mãe, conforme dissera ao truculento companheiro.

Muito já se filosofou sobre a cornice, mas nem o mais manso dos bovinos a aceita, assim de sopetão e com uma sinceridade pontiaguda. Foi assim que o Pedro Bala sentiu a notícia, uma grave punhalada no peito.

– Pedro, tu é corno, faz uns cinco meses, todo mundo sabia. E como é da praxe desses assuntos de guampa, tu tá sendo o último a ter ciência do fato. Como sou teu amigo te dou a real, sai dessa, tua mulher já fugiu com outro.

Foi ou não uma punhalada?

O Pedro Bala não queria ter matado o Guto, era seu amigo. No tribunal, ele alegou legítima defesa.

Câmera escondida

Felipe Basso II       Por Felipe Basso

 “É impossível curar a humanidade

de sua eterna má-vontade.”  (Antônio Maria)

 – E quando fica pronto?

– Sexta-feira, senhor.

– Mas são três dias. Como eu posso ficar sem celular por três dias?

– Eu entendo, senhor. Mas, infelizmente, não posso fazer nada.

– Mas eu uso para trabalho, não posso ficar três dias sem celular!

– Eu entendo senhor. Nossa empresa oferece celulares provisórios para aluguel. Se o senhor precisar, alugamos aparelhos.

– Sei, e isso, certamente, tem um custo.

– Tem sim, senhor. São R$ 100 ao dia.

– Cem? Tu tá me sacaneando, né? Isso é roubo. Quer dizer que o meu celular estraga e eu tenho que pagar R$ 300 pela demora de vocês. Vocês deveriam emprestar gratuitamente o aparelho! Sabe quanto eu paguei por essa droga de celular? Mais de 2 mil. Dois mil, entendeu? E agora tenho que bancar mais R$ 300? Tão achando que eu sou o Banco do Brasil? Assim até eu fico rico!

– Eu entendo senhor, mas…

– Para de me chamar de senhor. Tu é um retardado por acaso? Chama o gerente, eu quero falar com o gerente.

– Infelizmente, o gerente não se encontra na loja, senhor.

– Eu já mandei parar de me chamar de senhor, car*&¨%. Eu não quero atendente educadinho, eu quero alguém que resolva o meu problema.

– É o que estou tentando fazer, senhor, mas peço que o senhor compreenda…

– Para de me chamar de senhor, pelo amor de Deus! Eu já compreendi tudo. Tá achando que eu sou idiota? Eu não sou idiota. Vocês me venderam um celular, que agora está estragado e querem me levar R$ 300 por algo que não é minha culpa. Cansei de vocês. Acabaram de perder um cliente. Vou sair daqui agora mesmo e comprar da concorrência.

Na concorrência.

– Bom dia. Vocês estão com sorte hoje. Acabaram de ganhar um cliente devido a incompetência dos concorrentes de vocês. Preciso viajar essa semana e preciso de um celular para enviar e receber e-mails, mas que também abra arquivos de Word e Excel.

– Sem problemas. Agora mesmo. Eu só preciso que o senhor preencha o nosso cadastro e escolha entre os modelos que vou lhe oferecer.

– Perfeito. Viu, como tendo um pouco de boa-vontade as coisas funcionam. Vocês, sim, sabem trabalhar. Gosto disso. Eficiência. Só gostaria de ficar com o mesmo número porque já é conhecido dos meus clientes. É possível?

– Sem problemas. A portabilidade é realizada em até 72 horas, porém, a média está em dois…

– Para, para, para. De novo, não. É pegadinha, né? Onde eu olho? Onde tá a câmera?

– Senhor, não é pegadinha, o que estou tentando…

– Já mandei parar. Eu não sou surdo. Sim, 72 horas, três dias, o mesmo tempo que os idiotas dos teus concorrentes levam para consertar o meu celular. Se é para ter a mesma m…, eu fico com o que já estou.

– Eu entendo, senhor, mas..

De amor e ciúmes

              Dora Almeida     Por Dora Almeida

“Haverá horas lentas de ciúmes, e um silêncio angustiado

sufocará as palavras que nos fariam negociar o perdão. (Antônio Maria)”

Observo disfarçadamente enquanto ela se arruma para sair. Vejo que veste a camisa branca de seda sobre o jeans justinho, inclina o pescoço para colocar as argolas douradas que lhe dei de aniversário. Senta na beira da cama e calça as sandálias de saltos altíssimos. No espelho, sombra nos olhos, batom vermelho e o Light and Blue atrás das orelhas. Está linda, mas toda essa beleza, hoje, não é para mim. Sinto sufocar meu peito pensando nisso.

“Viste minha bolsa?” Está aqui, meu bem. Mal sabe ela que eu já havia vasculhado sua bolsa, checado as mensagens no seu celular. Será mesmo da amiga aquela mensagem marcando um happy hour no Apolinário agora à tardinha, com as colegas da escola? “Antes das dez estarei de volta. Me espera para vermos juntos o filme do Woody Allen que peguei na locadora, tá?”

Tento não pensar que ela se diverte com outras pessoas que não eu, que ri de outras piadas que não as minhas e que outros, que não eu, sentirão o seu perfume. Folheio desordenadamente o jornal, zapeio os canais da tevê, olho as publicações do Facebook mas nada me aquieta. Uma ideia começa a me passar pela cabeça: –e se eu for até lá?

Chamo um táxi: –“No Apolinário, por favor, ali na José do Patrocínio”.

Do lado de fora eu a vejo, colocando os cabelos para trás enquanto ri, feliz, de alguma coisa que eu não disse. Como é que pode? Percebo então que não há somente amigas, mas também um homem, ao lado dela, que, sorrindo, lhe serve uma taça de espumante.  Claro! Como sou idiota! A mensagem no celular era dele, o safado!

Entro e vou até à mesa onde ela está: “Vim te buscar, querida, vamos?” Ela, constrangida, me apresenta aos amigos: “Pessoal, este é o Flávio.” Mais nada, nem meu noivo, meu namorado ou meu marido.

Levanta, despede-se dos colegas com elegância, e me acompanha. Tento conversar, mas ela não responde. Em casa, apenas me avisa que irá embora no dia seguinte. Diz que está cansada de mim, do meu ciúme, das minhas cobranças. Fala que eu a sufoco!  Eu? Se ela é o que eu mais amo no mundo, que o que eu mais quero é ela sempre comigo e feliz do meu lado! Ela não entende isso?

E ali ficamos, num silêncio total. Vazios de palavras, vazios de gestos, vazios de amor. De amor? Não, de amor não, mas vazios de perdão.