Conheça o cronista – Zulmara Fortes

Zulmara Fortes é nascida em Uruguaiana, criada em Porto Alegre. Desde que se aposentou, participa de oficinas literárias e empresta seu tempo ao voluntariado. Na Associação dos Celíacos do Brasil/RS, editou durante três anos o informativo Viva sem glúten. Atualmente colabora com o Bazar da Aldeia da Fraternidade fazendo costurices.

Tem contos e crônicas publicadas nas antologias Antes do Ponto Final (Sintrajufe – 2008), Santa Sede – crônicas de botequim (Safra 2010), Concurso Nacional Jorge Ribeiro 2009 (PM Cachoeirinha – 2010) e Moraes da História (2012).

Zulmara Maria é portoalegrense por adoção, funcionária pública por conveniência, jornalista por formação, viúva por desventura, cronista por natureza. Cheia de sentimentos contraditórios, escreve para não se perder de si mesma.

Zulmara Fortes

Prazo de validade

Em tempos passados, uma amiga mandou-me, por uma rede social, a seguinte mensagem: amiguinha, to com o prazo de validade vencendo – o mesmo câncer que teve a minha mãe. Fora a tristeza e a emoção que tomaram conta de mim, por se tratar de uma pessoa especial, outra coisa ficou martelando no meu cérebro: prazo de validade para pessoas. Não é que isto nunca tinha me ocorrido antes!

Sou uma típica aquariana, sempre adiante do meu tempo. Sempre consciente da validade das coisas. Casamentos, namoros, empregos, endereços, móveis e decoração. Amigos dividindo o mesmo apartamento. Filhos morando com os pais. Pais morando com os filhos. Tudo isso tem um prazo para acabar. E, não se pondo um fim digno, na época certa, o que foi bom um dia pode virar um inferno no outro.

O objeto mais interessante para teorizar a respeito de validade é, sem dúvida, o relacionamento entre as pessoas. Enquanto os elos forem apenas os sentimentos, estes poderão ser eternos – amor infinito existe, amigos para sempre são reais. Começa a contar tempo a partir do momento em que é fabricado um vínculo formal, gerador de direitos e obrigações. O tempo pode variar, conforme o vínculo, conforme o nível de tolerância dos envolvidos, mas é certo que o contrato expira. Até pode ser renovado, desde que se estabeleçam novas regras para atender às novas demandas.

Pessoas mais antigas têm dificuldades para aceitar que as coisas modernas têm prazo de validade.  São de um tempo em que praticamente tudo era para sempre, menos o que se estragasse e não pudesse ser consertado. E, em outros tempos, quase tudo era possível de ser consertado, até mesmo os casamentos. Esposas perdoavam maridos infiéis, e estes ficavam com suas frígidas mulheres até que a morte os separasse. Esta, sim, sem chance de revalidação ou conserto. Entendo a dificuldade desta geração para aceitar as etiquetas com datas que determinam o fim da utilidade de coisas que sempre valeram até a eternidade.

Um tio idoso dizia que era bobagem validade nos alimentos; ignorava a etiqueta e consumia tudo o que tinha no armário como sempre fez a vida inteira. Outro idoso, pai de um amigo, vai mais longe, risca com sua caneta vermelha a data vencida e substitui pela que lhe convém. Há muito vem revalidando tudo o que pode. Um casamento de quase 50 anos, com a paciência de um monge tibetano. A fé no futuro com a chegada dos netos. E sua própria vida com a cura de um câncer.

Mas, voltando ao desabafo da amiga doente, nunca tinha percebido tão clara e estupidamente que a finitude da vida humana é determinada como numa etiqueta de salame ou goiabada. Melhor consumir até tal data. Depois disto não há mais garantia de sabor ou qualidade. E, se não for armazenado conforme as instruções, pode se deteriorar bem antes do prazo.

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