Maria por inspiração

Entramos em contagem regressiva para o lançamento do livro Maria volta ao bar. Agora, restam apenas nove dias até a próxima quarta. Nesta retomada do blog, já apresentamos os onze cronistas, crônicas de cada um deles, o Octávio Tostes, que escreveu a orelha do livro, a capa, além de uma seleção de frases do genial Antônio Maria.

E quer saber? Estamos tão felizes com a receptividade de vocês com os textos e com a ideia como um todo, que estamos pensando em continuar com o blog, mesmo após o lançamento do livro. Vocês gostariam?

E porque vocês nos acompanham e merecem sempre mais, vamos publicar o prefácio do livro, escrito pelo organizador e criador da ideia, o escritor Rubem Penz.

Marias coloridos I

Maria por inspiração

“Esta sede aflita jamais o deixou, mesmo depois

que os médicos lhe prescreveram as medidas da parcimônia.

Era um desmedido.”

Paulo Mendes Campos

Nada de muito novo ou genial se pode falar sobre Antônio Maria que já não tenha sido dito ou escrito por seus pares. Ou por ele próprio. Ou por seus biógrafos. Ou pelos teóricos da literatura. Porém, a tal “sede aflita” a qual Mendes Campos se refere quando recorda de Maria no aniversário de dez anos de sua morte foi o que nos aproximou deste genial cronista, a ponto de a ele dedicarmos um livro. Este livro. Obra que nasce na maior de todas as sedes – a da palavra. Ainda que todas as sedes sejam legítimas, para nós, esta é sagrada.

Desde 2010 venho conduzindo a Santa Sede – crônicas de botequim, uma cruza de oficina literária e projeto cultural que edita uma antologia por ano. Sob a inspiração da rotina boêmia dos escritores da época de ouro do gênero no Brasil, reúno as turmas no botequim para lermos e apartarmos nossa produção textual. Mais: para passarmos a limpo a vida, a semana, as alegrias e aflições. Para criarmos vínculos que transitem para além da ortografia ou da gramática. A meta é encontrar a voz literária de cada um percorrendo o caminho da alma, do coração. E, para os adeptos, também do chope, cerveja, vinho ou uísque – e água, suco ou refrigerante, com todo o respeito à abstinência.

Instigado a promover uma espécie de master class para a Santa Sede, e a lançar um segundo livro da série em 2014, busquei na lembrança do cinquentenário de partida de Antônio Maria a oportunidade ideal para glorificar sua memória. Antes de tudo, incitei o grupo a mergulhar no universo do escritor, ler sua obra, saber de sua vida. Refletir sobre nosso tempo em consonância com a sensibilidade mariana. Concomitantemente, pincei de sua produção pequenos fragmentos capazes de servirem de inspiração para novos textos, os quais aparecem no livro em forma de epígrafes. Daí surgiram 55 crônicas inéditas, as quais compõem este volume.

O resultado, graças a Deus, não se constitui em imitação ou apropriação de estilo. Antônio Maria entrou em nossa vida para servir de estímulo à escrita sensível e intensa, contaminando a voz literária de cada um dos cronistas em medida particular, intransferível. Outrossim, os temas internos dos autores foram preservados o tempo inteiro, deixando com que a influência servisse de enriquecimento, tempero, luz. Reverência. Era como se ele próprio estivesse em nossa mesa, opinando de modo generoso sobre a construção literária.

Assim nasceu Maria Volta ao Bar, livro organizado por mim, com co-organização de Felipe Basso, textos nossos e de Dora Almeida, Gerson Kauer (também nosso capista), Linda Grossi, Luciana Farias, Mariana Marimon, Roberto Marques, Tiago Pedroso, Vanessa Conz e Zulmara Fortes. Nosso modo carinhoso de sonhar que, se vivo fosse, se em Porto Alegre morasse, poderíamos ser amigos de Maria, com ele rir e chorar, por ele cruzar a cidade em busca do último bar aberto na madrugada. Quando em 15 de outubro de 1964 Vinícius de Moraes soube da morte de Maria, escreveu: “Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera”. Longe de nós desdizer as palavras de Poesia – era como Antônio nominava Vinícius. Contudo, enquanto houver sede no mundo, haverá quem em Antônio Maria Araújo de Morais se inspire. Seu coração ainda bate em nosso peito. A boa sede jamais cessa ou sacia.

Rubem Penz

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