BB-342-10206-2406

Linda Grossi  Por Linda Grossi

                     “Só se saberá verdadeiramente de um homem depois de morto,

quando o forem vestir.” (Antônio Maria)

– Vai com Deus, Chico!

Francisco morreu moço, 43 anos, vítima de atropelamento por moto. Antônia, a viúva, ficou surpresa quando ligaram do necrotério para fazer o reconhecimento. Foi lá, com os cinco filhos e a vizinha metida, levando a melhor roupa para vestir seu amado marido pela última vez.

O legista, para confirmar que Francisco era mesmo Francisco, perguntou o que significava a minúscula tatuagem atrás da orelha esquerda.

– Tatuagem? O Chico nunca gostou destas coisas. Seu moço, não gastamos com nada que não seja comida. Se tem tatuagem, não é meu marido não.

Ledo engano – Francisco tinha uma tatuagem: BB-342-10206-2406.

Sem dinheiro para velório, o enterro aconteceu no mesmo dia. Só Antônia, os cinco filhos e a vizinha metida. Nem um padre conseguiram chamar, não tinham como pagar a condução para mais um.

Os dias passaram e a sequencia de letras e números não queria sair da cabeça de Antônia. Não entendia como vivera nove anos sem ver aquilo. Está certo que o cabelo do marido tapava suas orelhas, mas não ver algo tão estranho, era realmente estranho. Incomodada, perguntou à vizinha metida o que ela achava da história:

– Ah, Antônia, isto está com cheiro de sacanagem. Ou quem sabe, é uma conta misteriosa?

– Bingo!. BB é Banco do Brasil.

Foram até o banco da rua de baixo, onde informaram que a conta pertencia à agência 342, no bairro mais nobre da cidade. Desconfiando de tudo, juntaram os trocados e se foram. Explicaram para vários funcionários o caso até serem encaminhados ao gerente.

– Que prazer em lhe conhecer, Dona Antônia, que prazer. Nunca vi um homem tão apaixonado como seu Francisco. Vivia falando na senhora, Dona Antônia. Agora eu entendo suas atitudes…

Atitudes? Antônia ficava cada vez mais perdida.

– Que homem, seu Francisco! Mesmo tendo nascido em berço de ouro, depois que a conheceu, resolveu fazer um voto de pobreza e doar sua herança para caridade. Dizia que não tinha outra forma de agradecer a Deus por tanta sorte em ter te conhecido. Ele se dizia abençoado por a senhora ter lhe dado uma família tão amorosa. Que homem, seu Francisco! Que homem!

No ônibus de volta, Antônia foi pensando nas dificuldades de sua vida. Doeu lembrar as madrugadas na fila do posto de saúde com os filhos ardendo em febre. As mãos machucadas pelas tinas de roupa que lavava para fora. O frio que passavam no inverno com poucas cobertas. O leite em pó que era mais do que diluído para tentar aplacar a fome de todos os pequenos. As noites em claro costurando as roupas que passavam de um corpo para outro. Doeu lembrar seus sonhos de menina. Doeu muito.

Não parou em casa, foi direto ao cemitério. Por quase uma hora olhou a cova rasa em sua frente. Pensou na vida. Chorou… Pensou na vida que poderia ter vivido. Gargalhou… Pensou que não tinha mais vida para seus sonhos. Chorou de novo…

– Que o Diabo te carregue, Francisco!

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