Só com eles

Zulmara Fortes

“Não estou só por dentro. Ser-se só por fora nunca teve grande importância.”

(Antônio Maria) 

            Hoje me veio à memória um membro da família, tido por todos como um solitário. Não comemorava aniversários – nem o dele, nem os dos outros. Natal e Ano Novo preferia passar sozinho. Não cultivava relacionamentos com parentes. Detestava os vizinhos. Amigos não tinha, um ou outro companheiro de copo e falatório político.

Não se sabe como se casou e formou família. Engana-se quem pensa que alguma coisa mudou. Continuou exatamente como era. Isolado do mundo e até mesmo da prole. Na vida profissional era competente, mas insensível às demandas de chefes e colegas. Fazia seu trabalho, batia o ponto e ia embora.

Durante alguns anos, conseguiu impor seu isolamento ao resto da família. Os filhos também não tinham amigos e a mulher vivia só para eles. Mas o tempo passa, as crianças crescem, pensam pela própria cabeça e começam a questionar. Não podendo mais evitar que sua casa fosse invadida por uma horda de jovens barulhentos, isolou-se mais ainda, no quarto.

Neurótico, esquisito, sociopata, esquizofrênico, autista, maluco, são alguns dos termos que usavam para defini-lo. Aqueles que o conheceram, pois muitos dos frequentadores da casa nunca tinham cruzado com ele.

Os filhos se casaram e deram-lhe netos. Não foi ao casamento de nenhum. Ficou menos rabugento depois que todos saíram de casa. Não precisava mais andar se esquivando deles. Quando visitavam, as crianças batiam na porta do quarto, querendo ver o avô. Eventualmente, conforme o humor, abria e deixava que entrassem. Era um mundo encantado para elas. Naquela fase da vida, além de livros, ele colecionava latinhas, caixinhas e outros objetos curiosos – porcas, clipes, moedas em desuso, fichas telefônicas, bolinhas de gude. Assim que as crianças pegavam intimidade e começavam a mexer nas coisas, o velho corria com elas do quarto.

Segundo a mulher, ele nunca foi só. Vivia com seus fantasmas.

Quando morreu, a família vasculhou o quarto, selecionando documentos, livros e objetos para doação e partilha. Entre tantas quinquilharias, encontraram dois copos feitos de bobinas de DKW. Mas a surpresa maior foram os papeis. Muitos papéis. Uma infinidade de manuscritos, alguns datilografados na velha máquina Royal. Crônicas, contos, poesias, tudo escrito por ele nos últimos 50 anos. Lá estavam os companheiros de toda a vida: Brizola, Jango e Juscelino; Vinicius, Bandeira e Drummond; João, Dora e Dona Mirtes. Uma variedade de personagens reais e fictícios, que nunca permitiram que ele fosse um homem só.

Trio parada dura

O Gerson Maria Kauer trabalha até quando está se divertindo. Durante a gravação da entrevista de Rubem Penz no Programa do Jô, o cronista, chargista e bem humorado Kauer aproveitou a oportunidade para criar essa linda ilustração, em que aparece o organizador da oficina Maria volta ao bar, Rubem Penz, o Jô, e, claro, o menino grande que ilumina isso tudo: Antônio Maria.

ilustração Kauer

Esconjuros

Felipe Basso II

“Nunca diga que o amor é fácil,

antes de vivê-lo como um vício.

Eu sofri quando terminou. Claro. Mas todo mundo me dizia que sofrer não estava com nada, que eu devia sair daquela deprê e ir pra noite pegar mulher, porque afinal, “elas estão todas a fim de dar”. Tá facinho, bicho, era o que me diziam.

Entretanto, eu queria sofrer. Minha glória, minha única glória, depois do desfecho imprevisível do nosso lance, seria sentar no balcão do bar e pedir uísque e ficar ali me lamentando com o garçom. E quem é que encontra garçom com paciência para ouvir papo de homem descornado?

“Vai pra zona e para com essa merda”, foi o que me disse o primeiro e único com quem tentei desabafar.

Só me restou ir para casa. Mas para quê? Chorar escondido, deitado no sofá, vendo reprise de Ghost? Tudo bem, queria muito sofrer e sofrer muito pelo fim do nosso rolo, claro, mas aí também já ficava pesado demais.

A verdade é que a dor da gente não vale mais nada, nem quando sai no jornal.

Só restou sofrer em silêncio. Mas sofrimento assim vicia rapidinho. Não demorou muito e eu comecei a gostar do sentimento. Ninguém saberia da minha dor, não seria compartilhada e nem curtida em rede social nenhuma, em site de relacionamento nenhum, em nenhuma bar pé-sujo que frequento por aí. A dor, finalmente, seria só minha.

E foi bom por um tempo. Como é o vício no começo. Ele nos deixa com autoestima elevada, capaz de enfrentar os olhares e comentários dos inimigos, dos conhecidos, e principalmente, das parcerias. Voltei a frequentar os bares, a falar alto e a contar vantagem, como sempre fiz.

O vício, porém, é traiçoeiro como juro de cartão de crédito. Você não sabe o tamanho da conta que vai pagar no mês seguinte. E quando eu caí, não foi um escorregão, como você já deve ter imaginado.

Mas os tempos são outros. Há crédito de sobra no mercado, inclusive, para negativados. Sendo assim, pendura aí, que lá vou eu me afundar nos juros de um novo amor.

Amigo imaginário

Por Linda Grossi

Apolinário 3

“Não se recusa vinho maduro, sejam quais forem às circunstâncias.”

(Antônio Maria)

Maria, 53 anos, funcionária pública. Rotina diária: oito horas trabalhando, oito horas cuidando da velha tia solteirona, oito horas dormindo.

Não tinha amigas. As conversas de suas colegas, marido-filhos-casa, não a interessavam. Seu único divertimento era o bingo da igreja. Seu coração batia acelerado em cada bolinha sorteada. Na festa da Páscoa, o N30 completou sua cartela – taquicardia por mais de quinze minutos. O prêmio? Uma passagem para Nova Iorque. Para duas pessoas.

Com a promessa da viagem, a velha tia solteirona perdeu cinco horas de cuidado. Maria não largava seu mais novo amigo: o computador. Ela só queria saber de teclar com João. João? Sim, com o João – o responsável da agência de turismo pelo prêmio.

João era ótimo. Sabia tudo sobre os Estados Unidos. Conhecia Manhattan como a palma de sua mão. Montou um roteiro de celebridade: Times Square, Central Park, Empire State Building, Central Station, Metropolitan Museum. Restaurantes elegantes. Musicais da Broadway. Maria começou a acreditar que até encontraria Frank Sinatra na cidade que nunca dorme. Rapidamente, as mensagens escritas se transformaram em ligações. João, com uma boa lábia, vocabulário generoso e bom senso de humor, fazia com que cada conversa fosse o acontecimento do dia de Maria. Seu coração não batia mais pelas bolinhas do bingo. O trim-trim do telefone é que a fazia suar frio. João seria o seu melhor acompanhante. Mesmo não o conhecendo e morrendo de medo de encontros de Internet, Maria queria arriscar. Era sua chance de mudar de vida. Ter uma vida sua. Sem a velha tia solteirona…

No dia da viagem, combinaram de se encontrar embaixo do relógio principal do aeroporto às 20h.

Como num filme, João e Maria se encontraram sem um segundo de atraso. Diferente das comédias românticas de Hollywood, não houve aquela corrida, em câmera lenta, onde o casal se abraça e tudo acaba num lindo beijo de amor. Nada. Nem beijo, nem abraço. Maria sabia que não era uma Angelina Jolie, mas esperava por um Brad Pitt. João, definitivamente, estava longe de ser um Brad Pitt. Nem com um sorriso amarelo conseguiu esconder sua decepção. João, constrangido, deu meia volta e foi se embora. Saiu de cena com sua bengala, os poucos fios grisalhos que lhe restavam na cabeça e a sua dignidade.

Maria embarcou sozinha e sozinha conheceu toda Nova Iorque. As dicas e histórias de cada lugar, contadas por João, não lhe saiam da memória. Não conseguia parar de pensar nele…

Sem dó nem piedade, na volta para casa, a velha tia solteirona lascou:

– E que tal o João?

– Foi um ótimo acompanhante. Imaginário.