Amigo imaginário

Por Linda Grossi

Apolinário 3

“Não se recusa vinho maduro, sejam quais forem às circunstâncias.”

(Antônio Maria)

Maria, 53 anos, funcionária pública. Rotina diária: oito horas trabalhando, oito horas cuidando da velha tia solteirona, oito horas dormindo.

Não tinha amigas. As conversas de suas colegas, marido-filhos-casa, não a interessavam. Seu único divertimento era o bingo da igreja. Seu coração batia acelerado em cada bolinha sorteada. Na festa da Páscoa, o N30 completou sua cartela – taquicardia por mais de quinze minutos. O prêmio? Uma passagem para Nova Iorque. Para duas pessoas.

Com a promessa da viagem, a velha tia solteirona perdeu cinco horas de cuidado. Maria não largava seu mais novo amigo: o computador. Ela só queria saber de teclar com João. João? Sim, com o João – o responsável da agência de turismo pelo prêmio.

João era ótimo. Sabia tudo sobre os Estados Unidos. Conhecia Manhattan como a palma de sua mão. Montou um roteiro de celebridade: Times Square, Central Park, Empire State Building, Central Station, Metropolitan Museum. Restaurantes elegantes. Musicais da Broadway. Maria começou a acreditar que até encontraria Frank Sinatra na cidade que nunca dorme. Rapidamente, as mensagens escritas se transformaram em ligações. João, com uma boa lábia, vocabulário generoso e bom senso de humor, fazia com que cada conversa fosse o acontecimento do dia de Maria. Seu coração não batia mais pelas bolinhas do bingo. O trim-trim do telefone é que a fazia suar frio. João seria o seu melhor acompanhante. Mesmo não o conhecendo e morrendo de medo de encontros de Internet, Maria queria arriscar. Era sua chance de mudar de vida. Ter uma vida sua. Sem a velha tia solteirona…

No dia da viagem, combinaram de se encontrar embaixo do relógio principal do aeroporto às 20h.

Como num filme, João e Maria se encontraram sem um segundo de atraso. Diferente das comédias românticas de Hollywood, não houve aquela corrida, em câmera lenta, onde o casal se abraça e tudo acaba num lindo beijo de amor. Nada. Nem beijo, nem abraço. Maria sabia que não era uma Angelina Jolie, mas esperava por um Brad Pitt. João, definitivamente, estava longe de ser um Brad Pitt. Nem com um sorriso amarelo conseguiu esconder sua decepção. João, constrangido, deu meia volta e foi se embora. Saiu de cena com sua bengala, os poucos fios grisalhos que lhe restavam na cabeça e a sua dignidade.

Maria embarcou sozinha e sozinha conheceu toda Nova Iorque. As dicas e histórias de cada lugar, contadas por João, não lhe saiam da memória. Não conseguia parar de pensar nele…

Sem dó nem piedade, na volta para casa, a velha tia solteirona lascou:

– E que tal o João?

– Foi um ótimo acompanhante. Imaginário.

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