Iguarias

Gerson Kauer01Por Gerson Maria

A primeira mordida que dei no canto do pastel liberou um jato de vapor de mil graus. “Vesúvio seria um bom nome para a iguaria”, pensei enquanto secava as lágrimas. Deixei o incandescente esfriar e tomei um generoso gole de café, que descobri estar a oitocentos graus. Um lanche num posto de gasolina é sempre uma aventura. Eu não consigo resistir a um pastel com café preto sempre que estou na estrada. Dentro do carro estamos protegidos, tudo vira paisagem emoldurada no para-brisa. As paradas nos postos e lancherias nos devolvem ao mundo do humores, aromas, sabores e temperaturas.

Os cafés dos postos tem variações. Os que já vem com açúcar, os chafés, os com gosto de saco (de pano), os requentados e os instantâneos. Por motivos econômicos, os cafés passados de posto são sempre mais fracos do que os de casa. Encontrar um café forte e aromático em um posto equivale a deparar-se com o Santo Graal. Prefiro os passados aos instantâneos, mesmo sendo aguados. É sempre uma alegria ver o atendente trazer aquela xícara Duralex coroada por uma nuvem de vapor.

Já os pastéis são responsáveis por momentos sublimes. A casca crocante e dourada coberta de pequenas bolhas, o formato clássico em semi-círculo ou o retangular, que abriga o meio-ovo-cozido-surpresa. Já comi um pastel que tinha uma pimenta chilli inteira dentro. Se você escapasse da queimadura do vapor, a da pimenta faria o serviço com maestria. Ao encarar um pastel você assume o compromisso de comer o que encontrar dentro. Escolha um canto para iniciar as mordidas e outro para ficar para baixo, servindo como uma calha para escorrer o excesso de óleo. Acontece, principalmente com os quadrados e retangulares, de você ir comendo a casca até conseguir chegar no guisado, que se acumulou mais ao fundo. Este processo pode desestruturar o conjunto e o recheio acaba desabando. Nestes casos, peça uma colher e coma o recheio ali, direto do balcão. Só é admissível deixar para trás o pequeno triângulo de casca empapado de óleo que você usou para segurar o pastel. Este pequeno pedaço é considerado como um suporte, e pode ser descartado.

Em 1986 eu conheci um pastel inacreditável. Uma lancheria nos arredores da praça da Alfândega em Porto Alegre fazia pastéis do tamanho de uma folha A4. Tinha um ovo inteiro dentro, mergulhado em um guisado avermelhado, maravilhosamente temperado. Conta a lenda que eles tinham uma versão para gladiadores, com dois ovos inteiros e uma quantidade de carne que alimentaria uma família. Nunca tive coragem de pedir este, mas os A4, comi vários. Ficava alimentado por um dia inteiro.
Um dia li no Correio do Povo que a Vigilância Sanitária havia fechado a lancheria. Descobriram que eles usavam carne dos ratões robustos que circulavam por ali nas madrugadas.
Achei um pecado, poderia ser ratão, mas era o melhor pastel do mundo. E nunca me deu, sequer dor de barriga.

O caso do cão boêmio

Por Antônio Maria

Uma das características da Delegacia de Copacabana é o caso policial em si, feito de acontecimentos menos policiáveis da vida. Daí sua crônica ser amena, no mais das vezes sem violência e sem sangue.

Na madrugada deste último plantão, quando o pernoite já se ia tornando tedioso, uma voz de mulher estourou na porta da rua:

– Não pode! Como vocês nao têm quem prender, prendem a mim e a ele.

Ela era mulher exuberante, corpulenta, de voz aguda, afinada em si bemol. E ele? De começo, não o vimos, porque seria um “ele” de tão baixa estatura, que a cabeça não ultrapassava o metro e meio do balcão que nos separava. Tivemos que levantar-nos, para ver “ele”. Que engraçada surpresa, em vez de gente, “ele” era um cachorro policial, de bocarra ofegante e caraça boêmia.

– O  cachorro também bebe… – informou o guarda-civil, para evitar dizer em duas vezes que os dois estavam bêbados. A história desses parceiros é uma das mais curiosaa de Copacabana. Mulher e cachorro, todas as noites, fazem uma pequena ronda nos botequins. Onde chegam, bebem, os dois, da mesma cerveja, no mesmo copo. A mulher se embriaga depressa e, embora não provoque ninguém, faz alaúza, quando provocada. O cachorro, como cachorro não fala, vai ficando por ali, no seu jeito banzeiro, até que a policia os prenda ou algum boêmio os leve para casa. Não sei de história igual, no mundo inteiro. É possível que se inventem melhores. Mas, assim, verdadeira, facilmente comprovável por mais de dez testemunhas, nunca soube de nada igual. Leva-nos a uma série de considerações e pesquisas. Exemplo: Por que bebe a mulher? Para esquecer ou lembrar, como todos os seus semelhantes. Mas, o cachorro? Por que bebe o cachorro? Porque gostou do primeiro copo e, daí por diante, não pôde mais viver sem os outros.

O comissário Nilo tinha dois problemas a resolver. Um mais fácil, o da mulher. Ficaria numa sala ao lado, curando-se da lombeira do álcool. E o cachorro? Nenhuma delegacia do Rio, apesar de inúmeros precedentes que deviam justificar esta providência, cuidou ainda de equipar um xadrez especial para cachorros. Ou, como o caso pedia, uma sala especial, de repouso, para cachorros alcoolizados. Então, enquanto se pensava uma solução de emergência para albergar o “ele”, mulher e cachorro caminharam cabisbaixos e se fecharam, por dentro, no xadrez mais próximo. Em volta, todos rimos de espanto, com alguma emoção. Depois abraçaram-se e dormiram.

Um tango na presença do Divino

Rubem PenzPor Rubem Maria

Juro por Deus. Entrávamos com nossos instrumentos musicais em uma das mais belas igrejas do Rio Grande do Sul para testar o som antes de uma apresentação contratada pelo poder público municipal, quando nos deparamos com um casal que comunga da mesma arte ajustando seu equipamento. Certamente iriam entoar suas canções durante a celebração da Santa Missa que precedia nossa execução. Antes mesmo de conversarmos, desconfiei de que algo não evoluiria bem ao escutar a jovem senhora ajustando os microfones: no lugar dos tradicionais “um, dois”, “teste” ou “som”, ela repetia “Jesus, Jesus, Jesus”. No íntimo, temi.

Quero crer que havia um quase sorriso quando nos cumprimentamos. Indagados sobre o que faríamos ali, a resposta foi uma apresentação musical. De que tipo? Tango. Agora me socorro das imagens clássicas dos filmes: foi como se o céu escurecesse no olhar da mulher. E, do fundo da alma, surgiu como um trovão o eco da mesma palavra: Tango? Dentro da igreja? Na presença do Divino? – apontando com as mãos para o altar. Neste momento, o homem tentou uma tímida conciliação, dizendo que, afinal, seria música. Fuzilado pelo olhar, ela o contradisse ríspida: Música? Tango? Na presença do Divino? Estávamos condenados.

O que seguiu foi um diálogo de surdos. O bandoneonista, um dos mais conceituados do Brasil, entrou na conversa para informar, calmo e conciliador, que já havia executado tangos com orquestra e coral em uma catedral paulista para mil e duzentas pessoas. Mas a senhora não queria mais conversa. Fechou-se em um monólogo de falsa indulgência dizendo que cada um sabe de si, faz o que bem quer e tudo bem. Ao mesmo tempo, intercalava com expressões de horror e choque. Na prática, não passamos o som: não havia clima. O violonista, célebre filho da cidade, foi poupado do constrangimento, pois estava distante e sendo festejado pelos amigos. Retiramo-nos.

Depois da missa, o inevitável reencontro – nós a montar o palco, eles desmontando o seu. A jovem senhora disse para outra mulher que tinha vontade de chorar por causa do que aconteceria, tomando todo o cuidado para que eu a escutasse. Calei-me num misto de respeito e piedade. Resolvi deixar a última palavra com o Divino. Ele fala conosco por vias indiretas e, se houvesse reprovação, viria algum sinal. Ao contrário, o som esteve mais do que perfeito. Violão e bandoneon executaram os temas divinamente e eu percuti a contento – sucesso! Concentrado, não mais vi o casal. Se eles não ficaram para nos escutar até o final, isso sim foi um pecado.

A volta ao velho bar

Por Antônio Maria

Há mais de cinco anos que aqui não botava os pés. Volto, hoje, mais magro, mais careca e o bar não é o mesmo. O aquário, com seus peixes-boas-vidas, dormindo, namorando, brincando de pegar uns aos outros. Um deles era gordo e tinha a barriga lisa. Chamavam-no de Antônio Maria. Adiante, o piano, ao pé do qual, após o quinto uísque, eu cantava um samba de Caymmi. “Desde ontem, que não vejo o meu amor….até parece um ano de sofrimento”. Lembro-de um 14 de julho, quando em homenagem à dona da casa (francesa), cantei a letra inteira da Marselhesa.

De outra vez, cheguei aos pedaços de uma viagem a São Paulo. Estendi-me num sofá e acordei com o dia alto e uma rapaziada, que eu nunca vira, espanando as mesas e a mim, cobertos de poeira. No dia seguinte ao em que fiz Ninguém me ama, vim ensinar a melodia ao Christie, que tocava piano de ouvido. Ele fez a primeira inglesa dessa canção já esquecida. A freguesia era outra. Nenhuma das pessoas que sentam hoje, com exceção do Braga, era cliente naquela época.

Ali, na mesa escanteada, Caymmi gostava de ficar, horas a fio, contando histórias lentas do seu pai baiano. Nunca vi um pai com tantas histórias. Uma delas, eu pedia sempre que repetisse. No dia em que Caymmy fez dezoito anos, o velho Durval entregou-lhe uma par de botinas e disse solenemente ao poeta: “Vá ao mundo e faça-se homem”. A Cristo não deram botinas. Fez o mundo descalço. O poeta Evaldo Rui, já morto, falava rouco e cantava o seu Saia do meu caminho, naquela cadeira mais alta do bar. Cantava com a mão na boca, como se confiasse um segredo. Uma noite trouxeram-lhe uma nota maior do que a esperada. O poeta gritou a frase, hoje nos anais da vida noturna. “Ou tira o couvert ou traz o lápis!”

Apolinário 1

Nora Nei estava aparecendo, gravara o Menino grande, o Quanto tempo faz e ensaiava comigo a maneira conversada de dizer o “Ninguém me ama”. De vez em quando vinha um paulista amigo. O casal Luis Coelho, o grandalhão (de corpo e alma) Luis Ramos. Ficávamos até de manhã, bebendo às custas deles. Hoje cá estamos. Eu e o velho Braga.

Entra a moça esperada e todos a olham com a mesma esperança. Um velho mistério toma o ar do Michel. Um silêncio de homens já bêbados, no fim da noite de lembranças. Lá está o aquário do Michel. Os peixes devem ser outros ou, ao menos, lá não está o que era gordo e tinha a barriga lisa – Antônio Maria – deve ter morrido.

Crédito: Mariana Marimon

Crédito: Mariana Marimon

Getúlio Vargas e Antônio Maria

A coluna do jornalista David Coimbra, em Zero Hora, hoje, traz uma história de Antônio Maria.

“Antônio Maria é citado hoje na coluna de David Coimbra: “Semelhante ao caso ocorrido com o brasileiro Antônio Maria, cronista que foi casado com Danuza Leão, autor da música Ninguém me ama. Maria teve os dedos quebrados pelos esbirros de Getúlio Vargas por causa de um artigo que publicara no jornal. Ferido, ele desdenhou:
– Tolos, pensam que escrevo com os dedos.”

Se você quiser ler a coluna inteira, clique aqui.