A noite em que choveu sapos

Rubem Penz Rubem Maria

Nos anos 1960, as praias em geral (e a Praia do Barco em particular) apresentavam-se às crianças como um lugar num só tempo perigoso e seguro, monótono e desafiador, familiar e estranho. Explico. Perigoso por causa dos escorpiões, cobras, aranhas, siris, corujas, gaviões, jacarés – um Animal Planet fora da tela. Seguro dos ladrões e de boa parte da violência dos homens. Monótono na medida em que não havia sequer luz elétrica, o que dirá movimento, videogame, lojas, TV a cabo… Desafiador pelo referido caráter Animal Planet. Familiar porque passávamos dois meses convivendo com as mesmas pessoas, em grande parte, parentes. Estranho pelo caráter… Você já sabe.

Ávidos por emoções fortes, desde muito pequenos estávamos instigados a explorar o ambiente. Andar sozinhos pelas dunas a procura de roedores e ninhos de quero-queros (péssimo negócio); pescar e tomar banho em pequenas lagoas; voar para telhados ou mergulhar nas fundações dos chalés; desafiar o repuxo do mar bravio e andar na escuridão da noite armados apenas de uma lanterna. Enfim, eu e minha turma (principalmente os meninos) vivíamos a procura de encrenca, frequentando justamente o habitat dos animais perigosos. Nada parecia nos assustar o suficiente, nem mesmo a história da mordida de cobra que quase matou a Verinha, filha do seu Antônio.

Nessas todas, pegar sapos com as mãos já nem poderia ser considerado um grande feito. E como tinha sapos na Praia do Barco! Ainda mais durante os verões chuvosos. Forçados pela dura concorrência de dentro dos charcos, ou atraídos pela facilidade de encontrar insetos onde havia luz, muitos deles se ofereciam para nós, dispensando a necessidade de caça. Pouca coisa era mais divertida do que mostrar um sapão para as meninas morrerem de medo e nojo. Sim, ensaiávamos a arte da sedução pelas lições mais básicas: mil e uma maneiras de irritar as mulheres!
Certa noite, um sábado de baile, eu circulava sozinho pelas voltas do Hotel Vendaval quando um sapo enorme cruzou meu caminho, obra da invisível mão do destino. Chateado por ter sido expulso das casas, onde adultos se aprontavam, e do salão do hotel, que recebia as últimas providências para a festa, aquele sapo descomunal representava uma promessa de cruel vingança. Com ele, eu sabia exatamente para onde ir: à casa da tia Lila. Lá, nada menos do que uma dezena de mulheres se aprontavam para o baile, concentradas em auxílio mútuo (não havia salões de beleza na praia).

Esgueirados pela porta dos fundos, vislumbramos, eu e o sapo, aquele mulherio alegre, tagarelando, umas mais vestidas, outras menos penteadas, ou vice e versa. Então, atirei o sapo para o centro da sala como quem faz uma cesta de chuá, lá de trás da linha dos três pontos. Atordoado pelo tombo, ou por causa do alarido, o sapo não coaxou nem saltou. Em compensação, nunca vi tanta mulher pulando ao mesmo tempo – umas para cima de cadeiras, outras sobre as mesas ou decolando para as camas dos quartos. Gritavam desesperadas pelo tio Pepino, que saiu do banho segurando a toalha na cintura, pronto para enfrentar o Armagedom. Foi o que vi, antes de sumir na escuridão, anonimato a dentro.

Domingo, tanto quanto a música ou o cardápio da festa, o sapo foi assunto obrigatório. Desejavam saber quem teria sido o pestinha que atirara aquele animal no meio da mulherada. Muitos eram os suspeitos, todos alçados a este patamar por merecimento. Mas eu não era citado – imagina só, um filho da Isolde. Desejando o justo reconhecimento, tratei de confessar o crime. Contudo, estranhei a complacência. Desde antes dos dez anos de idade, o bom mocismo me condenava (ou, no caso, absolvia). Eu e o bicho, porém, sabíamos: choveu sapo por pura maldade. Independentemente do fato de eu ser um verdadeiro anjo. Até hoje.

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