Prazo de validade

Dora AlmeidaPor Dora Maria

Maio, mês do meu aniversário. O banco chama para dar uma “prova de vida”. Preparo os documentos que o banco pede, conta de luz,identificação. Examino a carteira de identidade. Ali estão todas as minhas informações: nome, filiação, naturalidade, data de nascimento. Então observo que, como nas caixinhas de remédio, data de nascimento é a data de fabricação. E me dou conta que minha data de fabricação é muito antiga. Vejo ainda que ,ao contrário das caixinhas de remédio, há uma informação que não consta nos documentos: o “prazo de validade”.
De uns tempos para cá, desconfio que o meu está chegando. Mais ainda, que já chegou e não é de hoje.
No dia do meu aniversário,todo mundo me abraçou e falou:
– Saúde! Muita saúde!
Quando alguém te deseja “saúde”, pode ficar certo: o prazo de validade já está vencendo. Ou tu ouvirias:
– Muito amor , sucesso, muitas felicidades!
Outro indício que o prazo está no final é quando subestimam a tua inteligência. Ou a tua capacidade de aprender coisas novas. Outro dia encontrei uma antiga cabeleireira. Conversa vai, conversa vem,peço seu telefone e pego o celular para anotá-lo. A moça , delicadamente, me toma o aparelho das mãos e diz:
– Deixa que eu anoto para ti. Deves ser daquelas que não sabe anotar números no celular.
Apaguei o telefone dela.
E quando as pessoas começam a te dar conselhos de todo tipo?Prazo vencendo! E olha que não pediste conselho nenhum!
Mas elas insistem:
– Precisas tomar dois litros d’água por dia.
– Por que não fazes um serviço voluntário?
– Deverias ir aos bailes da terceira idade.
– Não fazes palavras cruzadas?
Ou então:
– A senhora deveria ter um perfil no Facebook. Peça para sua filha fazer um.
E quando acham que já não podemos ir a determinados lugares? Tenho uma amiga que escandalizou a família quando foi assistir “Cinquenta tons de cinza”. O filme era impróprio para a idade dela. Seguramente, minha amiga está fora do prazo de validade.
Isso tudo sem falar nas dores, nos males que nos levam aos consultórios médicos, às aulinhas de hidroginástica, às clinicas de fisioterapia.
Uma noite destas a fisioterapeuta me encontra no Apolinário, à noite, e diz:
– A senhora por aqui? O que faz a esta hora no boteco?
Pensei em dizer que resolvi sair porque perdi a agulha de crochê, que não consegui encontrar meus chinelinhos, que o sinal da NET caiu e não deu para ver a novela ou que vim encontrar um amante argentino.E o joelho, hoje, afinal nem está doendo tanto!
Mas não. Resolvo explicar que participo de uma Oficina Literária. Ela sorriu, mas me olhou de um jeito estranho que me fez pensar que eu estava no lugar errado. Complexo de inferioridade, a esta altura da vida? Ou é o bendito prazo que está vencendo?
Semana passada um casal de vizinhos comentou comigo que a filha tinha me visto no bar.
– Eras tu mesma? Fazes parte da Oficina Literária?
Digo que sim. Embora surpresos eles sorriem, educados e gentis que são. Conhecem a Oficina. Têm um amigo que participa do projeto.
Então decido:
– Vou esquecer desse prazo de validade. Vai ver ele já chegou e estou na prorrogação.

Guardo os documentos na bolsa, olho no espelho e coloco um batom carmim. Ensaio um sorriso e me dirijo ao banco para mostrar ao gerente o quanto estou viva.

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