Um copo que cai

Tiago PedrosoPor Tiago Maria

Um burburinho interrompeu o bocejo daquela manhã que já esticava os braços. Sob o tampo de mármore, na pia da cozinha, assovios, vaias e protestos. Tesouras latiam ferozes acossando ainda mais o já dominado pano de prato, preso por dois garfos em cada ponta. O café da manhã não será servido.
– Foi ele! Foi ele, sim! – faziam coro xícaras e seus respectivos pires.
– Ora, você foi o último a ser visto com as mãos nele, ontem à noite. Não se faça de santo sudário! Agora está ele ali, no chão, aos caquinhos – com os braços na cintura, indignado, bradava o açucareiro.
O descascador de cebolas vertia um pranto ácido. O martelo de carne batia a cabeça na parede. A torneira pingava lastimosa. Todos naquela cozinha adoravam aquele copinho de cristal. Pertenceu ao vô Onofre.
– Não fui eu! Juro que não fui eu! – desesperado, o pano de prato tenta livrar-se dos opressores.
– Joga essa flanela no liquidificador! – gritou o saleiro.
– Ponham logo esse farrapo no Micro-ondas – chiava o bule.
A lixeira, língua preta de saco de lixo pra fora, e a vassoura, com sua pazinha a cabresto, já iam recolhendo os restos mortais quando se ouviu um pedido, ou melhor, uma ordem:
– Não alterem a cena do crime! – advertiu a faca de churrasco, e continuou: – Deve haver mais utensílios envolvidos – disse isso encarando o rabo quente.
Esse, no mesmo instante, disparou em desabalada correria e ligou-se a tomada. Um estouro. Pânico.
– Eu sabia, sempre com o rabo preso – apontou a escumadeira.
– Se eu abrir o bico, aí sim, a coisa pode pegar fogo – ameaçou o velho fogão.
E instalou-se novamente a gritaria. Ligou-se a batedeira. Panelas batiam suas tampas.
– Já sei, chamem o desentupidor de pia, quero ver se ele não vai falar – sugeriu a torradeira.
– Calma prataria fina, calma. Eu, como defensor dos direitos dos panos, creio que é nosso dever ao menos ouvir o que tem a dizer esse pobre trapo – intervém, astuto, o ralador de queijo. Mas antes que o pano conseguisse gemer alguma defesa, costuraram-lhe a boca. E deram um nó em suas pernas. E já iam lhe rasgar ao meio quando se meteu a acolher de pau, acertando o fundo da panela de ferro, numa onda de pressão que deslocou o ar e o sentido de todos. O som do gongo sacudiu a geladeira que, até o momento, apenas observa imóvel, sem demonstrar sentimento. Silêncio. Moveram-se todos na direção do armário aéreo. Este abria suas portas em câmera lenta, por onde fugiam reflexos do sol que já alcançava a janela basculante.
– Ela não havia sido levada para uma daquelas casas de antiguidades? – cochichou o funil.
– Não aparecia nem nos natais, também pensei que já não estivesse mais aqui – respondeu boquiaberta, a frigideira.
– Nossa Senhora desentupidora dos ralos, é ela mesmo – resmungou o coador, fazendo o sinal da cruz.
A voz rouca e o sotaque português denunciavam: era realmente a antiga travessa de porcelana.
– Aquele que aqui está e nunca secou fora do escorredor, que atire o primeiro resíduo de comida – profetizou a velha louça.
– Mas ele espatifou o copinho do Vô Onofre! – Isso nunca tinha acontecido antes –, aqueceu-se a garrafa térmica.
– E essa, por acaso, é a primeira vez aqui que acontecem coisas que nunca tinham acontecido antes? Esse gajo está limpo, não estão a perceber? – e manteve: – Trata-se de um caso típico de copocídio. Soltem agora mesmo esse pano coitado! E quem ousar me desobedecer será condenado à terceira gaveta – sentenciou a matriarca.
Soltaram o pano todo amarrotado e voltou cada um a sua rotina. Já estava chegando o horário do almoço. Havia ainda muita coisa a ser feita antes de pôr a mesa. E eu nunca mais é que bebo vinho, em jejum, antes de lavar os pratos.

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