Véspera de São João

De ano em ano, ao passar pelas datas festivas, lavro o flagrante de meu saudosismo e sinto que estou envelhecendo mais depressa do que seria justo. Agora, por exemplo, quando escrevo estas notas, que serão publicadas sem época, é véspera de São João Batista e o barulho dos fogos, e o grito das crianças, e a rancheira sanfonada no rádio da vizinha, tudo isto me sucumbe, me infelicita, já não me atingem. Sei que fui um mal soltador de balões e que nenhum, dos que acendi, escapou de três metros de ascensão sem pegar fogo. Jamais enchi os bolsos de bobas transvalianas, jamais tentei acender o estopim de uma ronqueira. A bola de brasa das “estrelinhas” me atemorizava um pouco, porque diziam: “Se essa bola, se cair no seu pé, vai fazer uma ferida que não sara mais”. As noites de junho, porém, eram minhas de um jeito especial, no cheiro, na frieza do vento, nas cores de seus enfeites. A fartura das comidas à base de milho verde – canjicas, pamonhas, o próprio milho cozido ou assado -, os pratos enormes espalhados na mesa, a vaidade de mamãe ao explicar seu jeito inimitável de dosar o leite de coco, tudo isso era uma emoção, da qual o estômago e o espírito participavam, cobrindo-nos de orgulho pelo que éramos, unindo-nos num coral de ternura por aquelas mãos quituteiras, afeitas aos mistérios do sal e do açúcar. A cozinha da nossa casa, no Engenho Pontable, era um laboratório. Mais de vinte mulheres, mexendo alguidares, dando ponto em goiabadas, torrando castahas de caju, desnudando espigas, ralando coco, enrolando bolinhas cambará, davam-se de corpo e alma ao êxito da festa. Dali saíam dos bolos inesquecíveis: o de mandioca e o pé-de-moleque, que atraíam gente de longe para comê-los com café torrado e moído (no pilão) no quintal da nossa casa. Quando dava meia-noite, começavam as adivinhações. Minhas irmãs iam cravar facas virgens nos troncos das bananeiras e, no dia seguinte, não sei porque, amanhecia uma letra na folha da faca. Cada uma ia buscar um copo, com água até a metade, derramava clara de ovo dentro e, misteriosamente, no fundo do copo, aparecia uma igreja ou um cemitério, agourando mortes e casamentos. Nos pratos fundos, cheios d´água também, pingavam cera de vela, até aparecer uma letra boiando. Ante os meus olhos ansiosos e assustados, tudo aquilo era verdade, predição de Deus e dos santos.

Vi negros do engenho com os pés descalços, andando em cima do braseiro da fogueira e saírem rindo do outro lado, dando vivas a São João e a São Pedro. Não era o hábito do pé-no chão que, engrossando suas solas, as faziam escapar das queimaduras. Não. Era a fé. Era a crença daquela gente sugestionável, anestesiada por todas as coisas ditas em nome de Deus e da religião.

Hoje, esta véspera de São João me encontra na distância em que voluntariamente me coloquei, lamentando em silêncio, a morte da minha capacidade de deslumbramento. Aconteça o que acontecer, não sairei desta máquina (que há muito deixou de ser prazer para ser tarefa). Ah, eu gostaria tanto que os meus olhos ainda se encantassem, acompanhando o voo de balões até a altura em que eles se transformavam em estrelas. Mas a fadiga acabou com as reservas de meninice que a gente deve manter vida afora. Os fogos me intranquilizam. Os balões que se danem! Sou a favor daquele cartaz que recomenda não soltar balões para evitar incêndios dos pomares e das florestas. Gostaria de ainda acreditar nas adivinhações do copo, no prato fundo, da faca na bananeira… mas tudo o que esses bruxedos podiam prometer eu já fiz, por tudo eu já passei, só falta morrer. Esta noite me encontro sem ternura nova, sem um novo motivo, heroísmo. Dela, eu queria somente a brisa fresca e silenciosa, sem as vozes dos bêbados, sem os estouros de bombas cabeça-de-negro. Dela eu tiraria a paz filtrada de todas as dores ocasionais e nela armaria uma rede cearense, para dormir, esquecido de mim mesmo. Mas nem isso é mais possível. Todas as horas já foram prometidas aos outros. Tenho que escrever, tenho que falar, tenho que mentir…e tudo isso sem enlevo, na grande maioria das vezes, pelos que de mim exigem, esta inglória maratona.

Perdoai, senhores, tantas lamúrias. Mas cada um dá o que tem.

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4 comentários sobre “Véspera de São João

    • Perdoai, Antonio Maria e Marias, a minha ignorância. Achei que o texto fosse do Felipe Basso, mesmo. Não veio publicado com o apontamento usual “Por Antônio Maria”, por isso minha confusão. Coincidência é que recebi hoje “O Jornal” e encontrei teu texto lá publicado, datado de 11/7/1953. Falhas nossas.

      Auri

      • Oi Auri. Tão logo eu havia publicado, me dei conta de que havia esquecido o autor. O que aconteceu é que você deve ter visto tão logo publicado, mas o erro tinha sido corrigido logo. Obrigado pela constante atenção!

        Abraço

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